sexta-feira, 17 de julho de 2009

Telhas transparentes


A ressonância das cores esvoaça no júbilo das folhagens. Sacraliza o momento de torpor de uma descoberta, de uma borboleta nívea.
O quadro em que algo faltou.

O claro que fala péssimo, que o anonimato escreve dentro do meu olho.

E sou o rio que pára de correr.
Mas queria ser o pássaro dentro do rio.
Dentro do rio o pássaro e o livro.

O gosto por orvalhos e plantas na leitura de um plano.
Não só o nu. O expresso meio tom.

Vêm os ecos dos membros ermos na biblioteca.
E é místico o balanço. Passos indissolúveis.
Não tenha medo meu anjo.

E tudo nasce deliberadamente como a borboleta alva, sem todos menores, sem abas unidas.
E se entrega à música pacífica que dá o sonho que diz sim ao rio e deságua nos livros
os pássaros e os quadros no círculo. E no enrodilhar do verde se veste de noiva como só a arte.
O meio tom, o nu. Do que quiser.
Poema do livro "Meus Outros" - Foto:TT

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Clube do Conto da Paraíba

  • Por que Literatura é também partilha
Em férias na bela capital da Paraíba, tive a grata satisfação de, juntamente com a amiga e premiada escritora Dôra Limeira, participar de uma reunião do clube do conto. Era um belo final de tarde, 11 de julho, um sábado, no restaurante Coelho's em João Pessoa. Fui recebida com muita simpatia pela trupe animada: Alfredo Albuquerque, Valéria Rezende, Ricardo Fabião, Vivi e seu namorado Bonifácio, Yolanda, Cartaxo... Entre leituras de textos, comentários apimentados, suco de laranja e muita curiosidade, recebi de Dôra um exemplar do "Histórias de Sábado", uma coletânea dos trabalhos literários do clube, e da Valéria o exemplar número zero da "revista ponto", "que dá início a uma nova fase do Clube do Conto da Paraíba, porque somos muitos e palavras são habitações que não podem prescindir de moradores", diz um excerto do texto de abertura da revista. Fiquei emocionada com tão valiosas prendas. Na sequência, ofereci para sorteio entre os presentes um exemplar do livro "Meus Outros" o qual ficou com a simpática Vivi.
Foi uma sorte e uma alegria imensa ter esta oportunidade, grata por tudo querida Dôra Limeira e toda a turma do clube do conto, pela calorosa acolhida e agradáveis momentos, onde foi possível enriquecer literariamente além de fortalecer laços de amizade e intercâmbio cultural.
Quem se interessar visitará o endereço : http://clubedoconto.blogspot.com/ . A navegação garante aos leitores belíssimas histórias; literatura da mellhor qualidade. Bom passeio!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Naturezas


Naturezas

pronúncias indeléveis, magnólias
prêmio das horas, madressilvas
o inesperado, girassol

a brancura seduz retinas, um lírio
fervilha neurônios, duas orquídeas
intuir que tudo é estigma, três petúnias

sucessões idênticas, hirtas hortênsias
não fossem as datas, carícias açucenas
pseudo tempo, dálias essências
e as amarguras, bromélias
desmemórias, margaridas

a dimensão anônima, nenhuma camélia
ou cicuta inocente, algum jasmim

enquanto o efêmero se esfria numa violeta,
da tarde floral se anuncia a gênese
e do cactus a próxima gentileza da noite
e dos dias e das noites o anúncio da beleza;
o momento, o instante, o roseiral
da rosa-alma, da rosa-gênese, da rosa-rosa.
Poema do livro "Meus Outros"
Foto: TT

terça-feira, 2 de junho de 2009

Uma Outra História Possível

Olá amigos,

Na edição 44 do "Histórias Possíveis"
(entre outros colaboradores da revista), existe
" O homem que brilhava", desta que vos escreve,
"encadeada" pela alegria de mais uma publicação.
Partilho com vocês: Boa leitura!
http://historiaspossiveis.wordpress.com/2009/05/31/o-homem-que-brilhava/

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Enquanto ouço a Ave Maria

Tela: Madonna e Bambino- TT

Enquanto ouço a Ave Maria

Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranqüila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão (Rainer Maria Rilke)

A natureza desnuda o efêmero que existe em mim. Como uma auréola de eterna quimera, observo o interminável subterfúgio do nada, as suas intermitências insondáveis. Guardo almas e rostos em frações e artefatos de tempo – quiçá por sonhar o improvável, o ilegítimo, ou por não admitir a possibilidade real da verdadeira ilusão. Incapaz de resistir às precipitações da consciência, meu olhar pesquisa o pensamento, a rebeldia de cada instante que não me precipita em sua fugaz duração. O orvalho brilha como singelos diamantes à luz do sol sobre as florescências rubriplúmeas. A névoa agradavelmente fria parece coadjuvar com os vales num interlúdio para nutrir o hoje. É sublime respirar o sorriso, o pacto radiante que ultrapassa o silêncio.

Não há preocupação. Nem razão para motivos. No indescritível dos momentos há um pequeno alívio, uma trégua. E no impalpável, na réstia de alento que se distrai para quando eu possa, comemoro toda a sorte da minha arte. Um gorjeio de ternura me fita confiante no que possuo de mais sensível, como se detivesse o dom de fazer brotar do barro uma obra semelhante à divina.

Uma nova estação reaparecerá para forjar dos erros os passos de não se perder nos próprios; Deus, inigualavelmente perfeito, não obscurece sua criação com o perfeccionismo.
Nem eu ousaria desperdiçar a referência em que o coração novamente acredita, e inebriado sorve o necessário – porque é da sua natureza crer que será feliz.


http://blogdoalt.files.wordpress.com/2008/04/gazeta-alt-ed66-24-05-09-visualizacao.pdf.

domingo, 24 de maio de 2009

A de aquários diversos

http://blogdoalt.files.wordpress.com/2008/04/gazeta-alt-ed66-24-05-09-visualizacao.pdf

Pelo jornalista Oniodi Gregolin


Não eram as palavras
que me recebiam naquela
tarde. Tinta e cor
me davam boas-vindas
quando comecei a subir
os degraus. Dois lances
de escada e já a vi me esperando
no topo. Não caminhei
com pressa, sendo
que tinha uma quantidade
grande de pinturas para
olhar naquele ambiente.
Passando para a sala, mais
obras me vigiavam. De certo
modo me intimidavam, por
serem maioria. Casarios, pessoas,
paisagens, tudo parecia
me observar. As palavras, meu
mote de procura, ainda não
haviam sido pronunciadas ou
escritas, somente a cor sobre o
tecido que permanecia arte até
iniciarmos nossa conversa.
Aquele decorrer de menos de
dois minutos entre o subir escadas
e o aconchegar-me no sofá
me levou a uma vertigem de pensamentos.
Coisa que só acontece
mesmo quando a arte, de um modo
geral, permite essa viagem por
anseios e suspiros quase poéticos.
Mario Llosa, escritor peruano, descreveu
esse momento de interrupção
temporária da vida como resultado
de uma obra literária: “O romance
A de aquár ios
diver sos
apazigua o momento
de inquietude e insatisfação,
e esse momento
de suspensão provisória
da vida é que nos afunda
a Ilusão literária”. Mas não
foi Llosa o mais mencionado
naquela tarde; nos lábios da
artista – Tere Tavares –, Schopenhauer
era recorrente.
E da pintura à literatura, Tere,
nova membro da ACL (Academia
Cascavelense de Letras), deixou-se e
me levou a suspender a mente num
momento de conversa. “Eu entrei na
academia por meio de um convite de
uma acadêmica. Comecei a participar
das reuniões e logo fui admitida como associada
especial”. Por quase três anos, Tere
foi apenas associada à academia dos letrados
de Cascavel. Numa cerimônia na semana
passada, ela passou a ocupar uma cadeira defi
nitiva entre os membros. “Sempre esperamos
por algo assim, entretanto, até que não se confi
rme, sempre é uma surpresa”. Seguindo todos
os requintes que uma cerimônia desse porte exige,
Tere recebeu a toga verde e dourada que lhe caiu
sobre os ombros. Estava consentida.
A pintura e a literatura, nas quais é autodidata, dividem
a criatividade da artista. Os pincéis e a palavra são as duas paixões.

“Eu primeiro amei a pintura, depois, como prelúdio dos tempos do antigo
ginásio, a poesia, mas me realizo com as duas.
As artes dialogam entre si e todos os artistas sempre
se expressam por mais de uma delas”.
“É possível, hoje, viver de arte?”. “Não, mas como dizia Rainer
Maria Rilke, os artistas devem antes se garantir com alguma
renda para não fazer da arte uma forma de comércio,
podendo apenas se preocupar com o prazer de fazê-la”.
Por formação, a artista é economista e, já aposentada
do serviço público, faz de Cascavel o reduto das duas
manifestações artísticas que produz. “Não existe lugar
certo para produzir arte. Existe apenas o lugar
em que nos sentimos bem para isso. Hoje, aqui na
cidade, está havendo um bom crescimento no espaço
da cultura e isso é bastante positivo”.
Como amadurecimento da vertente literária
que deixou reaquecer, Tere publicou os primeiros
textos em antologias com outros poetas
no ano de 2002. A partir destas primeiras publicações,
surgiu em 2004 a primeira obra literária
solo da escritora: Flor Essência (Editora
Coluna do Saber, 2004). Também
composta por poemas, a obra permeia
o feminino e a natureza. Sobre aconchegar
um poema no papel, a autora
fala de inquietudes e solidão. “A poesia
surge pela necessidade de se expressar
e é isso que nos move até
ela. É como um chamamento em
momentos não muito alegres
e outros de solidão. Naqueles
momentos que sentimos que
precisamos dizer algo”.
Com uma experiência já
vivaz, em 2008 a autora
lançou a última obra,
Meus Outros (Editora Coluna do Saber, 2007). A
composição desta última manifestação literária
não saiu sem as diversas revisões da autora.
“Sempre há alguns textos que deixamos de fora.
Há ainda aqueles que modifi camos. Clarice Lispector
já dizia que depois de publicada a obra
ela não punha mais os olhos, razão tinha ela,
pois sempre queremos modifi car algumas coisas.
Outra coisa que acontece é quando olho
algum escrito antigo e penso: como pude escrever
isso? Mas não é porque é ruim, cada
dia vamos nos aperfeiçoando e exigindo
mais de nós mesmos. Schopenhauer dizia
que uma coisa é nascer com talento, outra é
a técnica para aprimorar esse dom”.
Não conheço a primeira obra da autora,
mas além da técnica da escrita, que se adquire
com sutilezas do praticar, a principal característica
de Meus Outros é a sinceridade
das palavras que se colocam para expressar.
Seguramente, pelo que conversamos, uma
obra avante é sempre um avanço. Resumiria
esse livro com um verso que extraí dele
no poema A verdadeira compreensão do
vazio: “E este sal derramado serve de
alento a alguém muito doce”.
Nossa conversa já discorria como se
fôssemos amigos de longa data. Como
lembrança daquela tarde, uma exemplar
de Meus Outros ela me presenteou.
E na dedicatória o oferecimento
de “algo das almas que trafegam
em esferas inaudíveis, porém perceptíveis”.
Ainda não pude degustar
com goles trôpegos todos os poemas
de Tere, mas o simples molhar
de lábios que tive com alguns deles
já instigou a vontade descontrolada
de me embriagar. Melhor seria
se os poemas fossem o vício da
carne; é minha alma, entretanto,
que transborda pelas reminiscências
que emergiram com
os Outros de Tere Tavares.
Como ela própria já se
disse: “seguramente,
sou de aquários diversos.

Publicado no caderno "Gazeta ALT" do Jornal Gazeta do Paraná, edição 66 de 24.05.09
http://blogdoalt.files.wordpress.com/2008/04/gazeta-alt-ed66-24-05-09-visualizacao.pdf

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Academia Cascavelense de Letras


Queridos Amigos,

É com imensa alegria que compartilho com vocês este acontecimento de inefável significado para mim, enquanto cidadã e artífice da palavra: em 15 de maio de 2009 fui nomeada acadêmica da Academia Cascavelense de Letras, onde ocupo a cadeira de número 26, que tem como patrono o advogado, político, escritor, historiador Dr Túlio Vargas. Em seu quarto aniversário de fundação e instalação a ACL, cujo inestimável trabalho contribui para o engrandecimento da Cultura, especialmente do município de Cascavel, se torna, cada vez mais, uma fulgurosa realidade.

sábado, 9 de maio de 2009

Histórias Possíveis

Na edição 41 do "Histórias Possíveis"
figura o conto de minha autoria: "Sobre uma concepção".

Partilho com vocês a alegria desta publicação,
para mim, de singular siginifcado.
Há outros trabalhos também de exímios escritores.
Para leitura basta clicar no título desta postagem.
Bem-vindos! Obrigada!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

a porta e o tema




havia nuvens de grafite
sobre os meus olhos
pés invisíveis
e por que não vi
nem tive uma idéia do futuro
ocultei o excesso de lucidez
-seixos de realidade são as palavras-
por que deveriam tremular
dobrarem-se ao meu gosto
asas e adereços
sequer nasci colibri
que as formas me façam festas
que os ventos enlacem silêncios
enquanto me abrigo em seus régios mantos
  • (ilustração -TT)

domingo, 26 de abril de 2009

La Infinita huída


La infinita huída

Se alguna vez
em la tierra de las palabras
El mar
con su pulsera de cielos
En la claridad
sin destino
Ir demasiado lejos
Abandona el paisaje
hacia una misma noche
Por donde el corazón
Con su lumbre de fuego
es un ángel que el aire imita.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Passos


Um painel de pano descendo do teto. É neste espaço artesanal que se gravam as intuições,o surreal dos passos. Passos de antanho e de agora, de amadurecimento e frescor indeléveis.

As flores voláteis e douradas são a estrada de Alice. Depois vem o convite ao mar, num quarto pequeno, o buquê, natureza viva. No quarto maior onde a mãe dorme, a miragem, e novamente, em duas nuances uma linguagem de flores, o claro obscuro em escorridas e femininas liberdades. No corredor o lugar ao léu, a lagoa com três patinhos mansos. Tem outra cena de lago e ocas ao poente lambendo a crueza das paredes.

O leite no escuro na sala da máquina de costura velha comanda outra vez a dança das flores junto a estante de ferro. Na cozinha os frutos suculentos da época. Em seguida, o novo do lago - não há como não refugiar-se nas águas - reflexos e beija-flores.
O que é isso que a desordem da vida pode sempre mais do que a gente?
(Guimarães Rosa)
E os olhares urbanos aguardam algumas das que serão as últimas pinceladas.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Intraduzível

Intraduzível

Do espontâneo, viajo vereda.
Exprimo o sublime ignorado.
Passo a imaginar a chave do limiar.
Isso não me faz maior ou menor do que sou.
Espero o círio aceso no cílio de um sino.
Espero de mim o mínimo inesperado.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Percepção de Ser

Percepção de ser
(Por Oniodi Gregolin)

Não era de esperar menos disso tudo. Do lírio branco que dava boas-vindas até os quadros que cobriam as paredes da escada, os poucos metros do portão até a porta saudavam a chegada já marcada dias antes. Desde a rua o ar tinha cheiro de arte, um pouco de lirismo misturado à terebintina. Enquanto subia, era solvido juntamente àquela mistura de cores e imagens, esperando que atrás da porta estivesse a artista. E estava, tão colorida quando as telas. O vestido que a cobria dos ombros aos pés trazia, por semelhança, as mesmas flores que adornavam muitos dos quadros dispostos pela casa. “Bem-vindos, entrem e fiquem à vontade”, era o convite para mais uma estada fascinante.

A despeito da fascinação, não era a pintura, uma das grandes vertentes artísticas de Tere Tavares, que nos trouxe até ali: apesar da singeleza que também traz com a ajuda das tintas, eram as palavras que me seduziram outrora. Quiçá fossem apenas as cores, os versos de Tere – acredito eu – têm força de atração capaz de arrastar qualquer coração que não se sacia com o óbvio. Ainda era tinta o que permanecia arte até aquele momento.

O tempo, fracionado em uma centena de minutos, foi o bastante para me fazer imergir numa vertigem de pensamentos. Como em outra ocasião, esta se fazia ainda mais especial. Antes, nada conhecia de Tere, mas desta vez os outros da poeta e pintora estavam comigo. Meu pensamento se propunha a escarafunchar no que ainda lembrava, em versos soltos, em palavras minimamente escolhidas. A de aquários diversos, como se definiu em algum poema que vaga pelo meu pensamento, fez cortesia: convidou à sala e serviu café. Do pensamento que vagava em estrofes, voltei ao chão. Tento estabelecer contato com a realidade, mas uso das palavras de Tere: “estabelecer não me cabe e se me cabe não estabeleço”. Minha realidade divagava em fantasias.

A história da poeta, contava-me, teve início ainda no Rio Grande do Sul. Lá, em terras mais frias, foi que começou a sentir a arte pulsar nas veias. Qual veio primeiro? Não tem certeza, mas supõe. “Desde criança eu gostava de desenhar e de escrever. Já na escola eu recebia muitos elogios pelas minhas redações. O desenho e a palavra sempre estiveram comigo, mas acho que foi com a pintura que me identifiquei mais no início”. E deste início Tere busca no quarto alguns desenhos e pinturas feitos na juventude. Da cabeceira da cama, traz uma pequena tela com uma jovem desenhada: “Essa é do meu marido. É a preferida dele”.

A carreira de Tere deslanchou num caminho inverso à arte. Depois de formada, trabalhou em alguns empregos, mas se firmou mesmo como bancária de uma instituição pública. “Eu queria mesmo era fazer faculdade de belas artes. Mas naquela época tudo era mais longe, mais difícil. A mais próxima era em Santa Maria, mas tive mesmo que optar pelo curso de economia em Cruz Alta”. Talvez a formação tenha sido o que desvirtuou Tere do verdadeiro caminho que deveria trilhar. Reside em Cascavel há alguns anos e foi aqui, já aposentada, que a arte voltou a falar mais forte.

Ao entrar na casa da artista, é perceptível o quanto clama. As cores, o traço, o movimento, tornam o incauto visitante hipnotizado. Quando conheci Tere, na primeira vez em que estive na casa da poeta, ela me presenteou com um livro. Até aquele dia não fazia conta de quem seria ela e nem do conteúdo do que escrevia. Para minha surpresa, saí da casa carregando um livro que devorei em poucos dias. Na primeira página, a dedicatória profética do que seria feito de minha leitura: “Algo das almas que trafegam em esferas inaudíveis, porém perceptíveis”. Ao sabor de Tere, delicio-me até hoje com poemas que não me privaria de colocar ao lado da obra de grandes poetas. À natureza, ao lúdico, à tristeza, ao segredo, à súplica, à dor e às ambiguidades, é fácil de encontrar, na obra de Tere, odes tecidas em louvor a momentos e fragmentos de uma realidade tão só e singular como a de uma poeta.

Da vida dela, conta-nos pouco pessoalmente. É moderada em palavras faladas, quando na escrita se descobre uma artista escondida: “No dia em que nasci deram-me as heranças de todos os nascimentos, as vidas que não lembro ter vivido, o propósito, em natureza e sabedoria, inexpugnável ao meu estado humano”. Da felicidade que se atém absorta no íntimo em poemas também revela: “A pergunta de estar bem, direi sim, e será verdade, como é verdade o cio da chuva, que namora a noite, e se enamora de si, e transborda de infinito, e me sorri os amores, no essencial extenso de vivê-los”.

Decifrar um poeta é das coisas mais difíceis de se fazer. O semblante feliz que se revela, com a casa em ordem e os quadros em harmonia pelas paredes, sempre esconde algo e é nas palavras escritas que transbordam o verdadeiro existir. Não haveria nenhuma entrevista que pudesse trazer qualquer descrição de quem realmente é Tere Tavares. A conversa, útil às vezes, traz apenas algumas dicas e aponta para quais caminhos seguir. “Eu descompasso o atraso da realidade que amarrei na lua. Eu desamarro o muro de tijolos enjoados de serem sujos de massa. Eu suporto e mostro os dentes. Eu trituro o medo. Apenas eu, sem eus, tão menos, tão justa. E isso tudo?”. Ao redor, ela me mostra bravura. Os quadros pintados com esmero de quem calcula cada pincelada para que não padeça em dor. As palavras, concisas e breves, para não deixar de dizer pela limitação.

Ao continuar nessa leitura de semblante, de palavras, de traços, continuo na vergonhosa batalha fadada ao fracasso. “A noite pede explicações, sim eu sou sutil e minha dança é um véu inviolável, vê? Está ali o ideal de mistério, fácil e sem nome, acenando para mim”. Os olhos claros pousam sobre mim. Ela me conta histórias que prefere que fiquem ali, naquela sala. Conta-me algo de limites e é nas palavras escritas que encontro semelhança para o olhar que novamente pousa sobre mim: “quando é branda a calmaria das horas a quem tem a eternidade para si”.

Saímos da ampla sala para o pequeno ateliê. Vim até ali em busca de palavras, mas acredito que nas duas artes é que é possível desvendar Tere. Do dia em que a conheci durante a posse na Academia Cascavelense de Letras até agora, nenhum vinco de sombras inexplicáveis foi preenchido. Até agora. Ao abrir a porta do pequeno quarto ela brinca e ri: “Não vai rir do meu ateliê. É tão grande que terei que esperar do lado de fora”. Uma tela repousava sobre um cavalete. Cheirava óleo e terebintina. Fotografo e miro nela um pouco mais da artista. Ali, guardada, feita passo a passo, com cautela de quem não pode avançar rapidamente, entendo um pouco mais de Tere: “Cada dia é um oráculo que me circunda”.

Fecho a porta do ateliê e já vislumbro a rua. É quase meio-dia. O lírio branco que saudava a chegada também fazia despedida. Não há cerimônias para a partida, mas alteio a artista que por tropeço conheci. Dos poemas de Tere, novamente faço recurso para me despedir. De nome Percepção, a melhor descrição que pude encontrar: “Sempre sinto o que penso. Não é vício de sombrear. É antes o aspecto irredutível de uma luz que me toma de empréstimo. Sem o direito de arrancar o raio, resta-me o curso furioso das mãos, o som fluido das palavras”. (Oniodi Gregolin)

Publicado no blog Canto da Cultura:
http://cantodacultura.wordpress.com/2009/11/03/percepcao-de-ser/