sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Campos errantes no Potiguar Notícias

Campos errantes no Potiguar Notícias, Rio Grande do Norte.

Quem acompanha com olhar atento o panorama das artes e dos que a praticam com profundidade de intenções e pureza de objetivos, há de notar que vem aumentando a freqüência com que artistas que trafegam em outras modalidades da arte vêm se dedicando também à literatura. Não estamos nos referindo àquela longa tradição que inicialmente destaca o debate entre as artes irmãs, ou aquela acolhida nos estudos de literatura comparada sob o viés da comparação de uma literatura com outra ou outras, ou a comparação da literatura com diferentes esferas da expressão humana. Sobre isto muito já se escreveu por sinal. O que salientamos é a ocorrência, e cada vez com maior freqüência, de um verdadeiro amálgama, uma mescla da expressão artística de autores em variadas manifestações.
 
Belo exemplo de artista de múltiplos talentos é Tere Tavares que para além da pintura, pratica literatura de alta qualidade (com incursões no gênero de poesias, contos e prosa poética). Após vários livros e outras tantas exposições de seus belíssimos quadros, brinda-nos agora com o volume de textos em prosa poética que abordam dentre tantos aspectos de nossa sensibilidade e de nosso viver contemporâneo, verdadeiras pérolas de conscientização existencial. Mas que ninguém se engane quanto ao fruir dessa obra de características bastante peculiares. Não há textos ‘fáceis’, mastigados e de imediata assimilação. Demandam do leitor a cumplicidade com uma escrita cifrada em Flashes, como afirma Carlos Emílio Corrêa de Lima no Prefácio da obra: “Flashes, perfis- flashes. Um misticismo arcaico e esotérico que se fantasia de novas particularidades. ‘Captura da ancoragem’. Frases quase incompreensíveis - e o que é mais belo que isso? – em busca de psiques. A narrativa nunca é veio, mas se incorpora em forma de cantaria caligráfica, desepicentro amarelo de todas as cores móveis, água vidente de vias e rumos, tendões de água direcionada, de jatos cruzados vindos de todos os sentidos, uma nova prosa simbolista à vista da leitura, jogos pictóricos da linguagem, uma reciclagem de símbolos, uma linguagem com milhões de lados, uma poeira sonora de mitos porosos, desconexos, dos espaços regirados ao contrário do contrário”. Parece muito complexo? Não é. Passemos ao depoimento que nos dá Ornella Dina Mariani de Lecca na Itália em texto de Posfácio, síntese bastante pertinente sobre esta obra de Tere Tavares: uma “alma que está intrinsecamente imbuída de poesia, embebida a ponto de transbordar. Sua escrita é, portanto, não só prosa poética, mas poesia pura que se detém em descrições detalhadas de estados de espírito como de profundezas marinhas, concavidades e encostas e margens onde a sua heroína procura conosco a explicação de si, do seu existir em tanta luz”.
 
Destacamos nos trechos de Carlos Emílio Corrêa de Lima e Ornella Dina Mariani, algumas palavras: “flashes”, “estados de espírito” e “em busca de psiques”. Aí temos o que refletir, e muito. Nossa psicologia já admite que o nosso estado de consciência é fenômeno em continua elaboração construtiva ou destrutiva. Vivemos um período no qual o ser, entendido como unidade prioritariamente orgânica, cede lugar a complexas unidades psíquicas - com a mesma febre de criações (paixões), com a mesma monstruosidade de formas espirituais (erros, violências, mentiras), e com a mesma incerteza e instabilidade. Sim, por certo, é o que a olhos nus podemos observar. Período de monstruosas construções, repetimos. Mas por outro lado, parece emergir um lento trabalho subterrâneo de amadurecimento e de assimilação que se opera no mundo psíquico-social, dando lugar a que o equilíbrio estável e fechado do passado se precipite na revolução do modo de pensar. Não é a arte a suprema expressão da alma humana? E por qual razão o fenômeno artístico não possuiria também os seus ciclos, que outra coisa não são senão os ciclos do fenômeno psíquico?
 
Eis que, para espanto dos que não conseguem visualizar um boi se não o apalparem muito bem apalpado, surge inopinadamente – porque impositiva -, a febre da evolução e a insaciabilidade de nossa alma que são forças irresistíveis e universais, a nos impelir para mais alto. Como que uma lei invisível, que requer contínua dilatação do nosso psiquismo. Positivamente encontramo-nos em um momento em que não é mais possível fugir ao dilema: ou compreender ou se exterminar. Não estamos falando de problemas abstratos, religiosos, ideológicos ou teóricos. Mas de uma problemática social e individual concreta. Problema de vida e morte, porque nossa ignorância constitui nossa impotência, e não atinamos ainda em desenvolver uma vontade cada vez mais viril, uma inteligência sempre mais aguçada, e um coração cada vez mais sensível e aberto. Uma equação muito simples se impõe para a nossa macacada: aceitar uma vida bestial ou lutar pela civilização da humanidade. Essa a vitória ‘biológica’ que a evolução impõe nesse momento histórico. E peço desculpas aos leitores por esse desabafo virulento. Foram pensamentos como esses que se desencadearam em meu ser após ler os textos de “Campos errantes”. Querem ver? Apenas um: “Magno”.
 
"A gélida laje me traz algumas anotações desconexas, leões dormindo em árvores, caçadores à espreita, convites aceitáveis, uma frase de Simone de Beauvoir, uma inconsistência que atrapalha as formulações exitosas e a seguir desaparece. Ando ao contrário para estar no lugar certo. A perspectiva é persuasiva. Sou transitório, musical como as cachoeiras. Somente quem transmite confiança torna-se confiável. Magno luta por qualquer migalha de entusiasmo que possa captar; em si, estão presentes as leituras graduadas, as interpretações retorcidas como escadas em caracol, o brevíssimo culminar das tragédias, o argumento, o brio, as armadilhas perpétuas e póstumas de alguém que, insaciavelmente, investiga-se ou é investigado.
 
Magno transita pelas abreviaturas liquefeitas em sua derme de ostra – um traje cravado e quase inorgânico. Distingue-se pelo que pensa e desguarda-se do desastre, como o que lê num papel amassado: ‘A formosura, embora todo o seu fascínio, pesa como uma paixão consoante ao desconforto. Todas as mulheres são lindas e lidas – são a deriva e a derivação, o refúgio e o desespero, os encantos que eternizam: meros detalhes de composição, de um confrontável pensamento a circular em acordes de fôlego e talento. Precisamos de novas e inovadoras referências. Estar no padrão ditado pelos falsos autores da beleza – não é tão simples carregá-la – que nos querem atrair em seus próprios claustros: meandros subjacentes que não reconhecemos porque profundamente cruéis e ilegítimos’. 
 
Num fragmento chamado casa, Magno recebe um broto esculpido pela Lua que embala a noite lúdica. As pedras, as plantas e tudo o que vive sussurram simbologias para lhe indicarem a fecundidade que se espalha como as penas quando retiradas dos travesseiros. ‘Sou ilha irredutível e tudo me é afiançável quando colho com os sentimentos os valores naturais, os enovelamentos do farfalhar planetário. À demanda do dia e às manhãs noturnas. Emociona-me essa evidência costurada em ciclo inicial, fatídico, como se todas as coisas falassem dos distúrbios por percorrer. O sentido dessa expectativa de vida após a vida não é algo que se possa traduzir racionalmente. Sob o fulcro da razão, as únicas e impalpáveis deduções – colocando nisso as fraquezas, dogmas, polêmicas e complexidades – são as que nos permitem alcançar expansões que fogem do absoluto e do definitivo; a incansável busca é o fecho, o resquício último de alguma réplica plausível. Quando nada me socorre, me lembro de Deus. Há de me guiar o Sol ao crepitar das borboletas. E me instruir sobre como captar a estridência dos grilos’”.
 
Voltemos finalmente ao Posfácio de Ornella Dina Mariani. Forçoso concordar com ela quanto ao trabalho que a autora realizou e que “nos fala de uma humanidade melhorada por este contato íntimo com a natureza, seus segredos e suas maravilhosas protuberâncias, que chamamos árvores, mares, folhas, flores, pores de sol e, como última flor, a nossa alma. Os “Campos errantes” da senhora Tere Tavares nos levam a pensar no Absoluto, aquela verdade escrita em nosso mais potente instinto, na nossa aspiração maior que é a de subir sem limites, subir eternamente.
 
SERVIÇO
Livro: “Campos errantes”, contos de Tere Tavares. Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2018, 196p.
ISBN 978-85-5833-435-8

http://www.potiguarnoticias.com.br/noticias/40242/campos-errantes-a-busca-pelo-absoluto-no-livro-de-contos-de-tere-tavares


Meus agradecimentos aos editores.


domingo, 6 de janeiro de 2019

“Campos errantes”. A busca pelo Absoluto

“Campos errantes”. A busca pelo Absoluto
Por Krishnamurti Góes dos Anjos
Quem acompanha com olhar atento o panorama das artes e dos que a praticam com profundidade de intenções e pureza de objetivos, há de notar que vem aumentando a freqüência com que artistas que trafegam em outras modalidades da arte vêm se dedicando também à literatura. Não estamos nos referindo àquela longa tradição que inicialmente destaca o debate entre as artes irmãs, ou aquela acolhida nos estudos de literatura comparada sob o viés da comparação de uma literatura com outra ou outras, ou a comparação da literatura com diferentes esferas da expressão humana. Sobre isto muito já se escreveu por sinal. O que salientamos é a ocorrência, e cada vez com maior freqüência, de um verdadeiro amálgama, uma mescla da expressão artística de autores em variadas manifestações.
Belo exemplo de artista de múltiplos talentos é a senhora Tere Tavares que para além da pintura, pratica literatura de alta qualidade (com incursões no gênero de poesias, contos e prosa poética). Após vários livros e outras tantas exposições de seus belíssimos quadros, brinda-nos agora com o volume de textos em prosa poética que abordam dentre tantos aspectos de nossa sensibilidade e de nosso viver contemporâneo, verdadeiras pérolas de conscientização existencial. Mas que ninguém se engane quanto ao fruir dessa obra de características bastante peculiares. Não há textos ‘fáceis’, mastigados e de imediata assimilação. Demandam do leitor a cumplicidade com uma escrita cifrada em Flashes, como afirma Carlos Emílio Corrêa de Lima no Prefácio da obra: “Flashes, perfis- flashes. Um misticismo arcaico e esotérico que se fantasia de novas particularidades. ‘Captura da ancoragem’. Frases quase incompreensíveis - e o que é mais belo que isso? – em busca de psiques. A narrativa nunca é veio, mas se incorpora em forma de cantaria caligráfica, desepicentro amarelo de todas as cores móveis, água vidente de vias e rumos, tendões de água direcionada, de jatos cruzados vindos de todos os sentidos, uma nova prosa simbolista à vista da leitura, jogos pictóricos da linguagem, uma reciclagem de símbolos, uma linguagem com milhões de lados, uma poeira sonora de mitos porosos, desconexos, dos espaços regirados ao contrário do contrário”. Parece muito complexo? Não é. Passemos ao depoimento que nos dá Ornella Dina Mariani de Lecca na Itália em texto de Posfácio, síntese bastante pertinente sobre esta obra de Tere Tavares: uma “alma que está intrinsecamente imbuída de poesia, embebida a ponto de transbordar. Sua escrita é, portanto, não só prosa poética, mas poesia pura que se detém em descrições detalhadas de estados de espírito como de profundezas marinhas, concavidades e encostas e margens onde a sua heroína procura conosco a explicação de si, do seu existir em tanta luz”.
Destacamos nos trechos de Carlos Emílio Corrêa de Lima e Ornella Dina Mariani, algumas palavras: “flashes”, “estados de espírito” e “em busca de psiques”. Aí temos o que refletir, e muito. Nossa psicologia já admite que o nosso estado de consciência é fenômeno em continua elaboração construtiva ou destrutiva. Vivemos um período no qual o ser, entendido como unidade prioritariamente orgânica, cede lugar a complexas unidades psíquicas - com a mesma febre de criações (paixões), com a mesma monstruosidade de formas espirituais (erros, violências, mentiras), e com a mesma incerteza e instabilidade. Sim, por certo, é o que a olhos nus podemos observar. Período de monstruosas construções, repetimos. Mas por outro lado, parece emergir um lento trabalho subterrâneo de amadurecimento e de assimilação que se opera no mundo psíquico-social, dando lugar a que o equilíbrio estável e fechado do passado se precipite na revolução do modo de pensar. Não é a arte a suprema expressão da alma humana? E por qual razão o fenômeno artístico não possuiria também os seus ciclos, que outra coisa não são senão os ciclos do fenômeno psíquico?
Eis que, para espanto dos que não conseguem visualizar um boi se não o apalparem muito bem apalpado, surge inopinadamente – porque impositiva -, a febre da evolução e a insaciabilidade de nossa alma que são forças irresistíveis e universais, a nos impelir para mais alto. Como que uma lei invisível, que requer contínua dilatação do nosso psiquismo. Positivamente encontramo-nos em um momento em que não é mais possível fugir ao dilema: ou compreender ou se exterminar. Não estamos falando de problemas abstratos, religiosos, ideológicos ou teóricos. Mas de uma problemática social e individual concreta. Problema de vida e morte, porque nossa ignorância constitui nossa impotência, e não atinamos ainda em desenvolver uma vontade cada vez mais viril, uma inteligência sempre mais aguçada, e um coração cada vez mais sensível e aberto. Uma equação muito simples se impõe para a nossa macacada: aceitar uma vida bestial ou lutar pela civilização da humanidade. Essa a vitória ‘biológica’ que a evolução impõe nesse momento histórico. E peço desculpas aos leitores por esse desabafo virulento. Foram pensamentos como esses que se desencadearam em meu ser após ler os textos de “Campos errantes”. Querem ver? Apenas um: “Magno”.
"A gélida laje me traz algumas anotações desconexas, leões dormindo em árvores, caçadores à espreita, convites aceitáveis, uma frase de Simone de Beauvoir, uma inconsistência que atrapalha as formulações exitosas e a seguir desaparece. Ando ao contrário para estar no lugar certo. A perspectiva é persuasiva. Sou transitório, musical como as cachoeiras. Somente quem transmite confiança torna-se confiável. Magno luta por qualquer migalha de entusiasmo que possa captar; em si, estão presentes as leituras graduadas, as interpretações retorcidas como escadas em caracol, o brevíssimo culminar das tragédias, o argumento, o brio, as armadilhas perpétuas e póstumas de alguém que, insaciavelmente, investiga-se ou é investigado.
Magno transita pelas abreviaturas liquefeitas em sua derme de ostra – um traje cravado e quase inorgânico. Distingue-se pelo que pensa e desguarda-se do desastre, como o que lê num papel amassado: ‘A formosura, embora todo o seu fascínio, pesa como uma paixão consoante ao desconforto. Todas as mulheres são lindas e lidas – são a deriva e a derivação, o refúgio e o desespero, os encantos que eternizam: meros detalhes de composição, de um confrontável pensamento a circular em acordes de fôlego e talento. Precisamos de novas e inovadoras referências. Estar no padrão ditado pelos falsos autores da beleza – não é tão simples carregá-la – que nos querem atrair em seus próprios claustros: meandros subjacentes que não reconhecemos porque profundamente cruéis e ilegítimos’.
Num fragmento chamado casa, Magno recebe um broto esculpido pela Lua que embala a noite lúdica. As pedras, as plantas e tudo o que vive sussurram simbologias para lhe indicarem a fecundidade que se espalha como as penas quando retiradas dos travesseiros. ‘Sou ilha irredutível e tudo me é afiançável quando colho com os sentimentos os valores naturais, os enovelamentos do farfalhar planetário. À demanda do dia e às manhãs noturnas. Emociona-me essa evidência costurada em ciclo inicial, fatídico, como se todas as coisas falassem dos distúrbios por percorrer. O sentido dessa expectativa de vida após a vida não é algo que se possa traduzir racionalmente. Sob o fulcro da razão, as únicas e impalpáveis deduções – colocando nisso as fraquezas, dogmas, polêmicas e complexidades – são as que nos permitem alcançar expansões que fogem do absoluto e do definitivo; a incansável busca é o fecho, o resquício último de alguma réplica plausível. Quando nada me socorre, me lembro de Deus. Há de me guiar o Sol ao crepitar das borboletas. E me instruir sobre como captar a estridência dos grilos’”.
Voltemos finalmente ao Posfácio da senhora Ornella Dina Mariani. Forçoso concordar com ela quanto ao trabalho que a autora realizou e que “nos fala de uma humanidade melhorada por este contato íntimo com a natureza, seus segredos e suas maravilhosas protuberâncias, que chamamos árvores, mares, folhas, flores, pores de sol e, como última flor, a nossa alma. Os “Campos errantes” da senhora Tere Tavares nos levam a pensar no Absoluto, aquela verdade escrita em nosso mais potente instinto, na nossa aspiração maior que é a de subir sem limites, subir eternamente.
Livro: “Campos errantes”, contos de Tere Tavares. Editora Penalux, Guaratinguetá – SP, 2018, 196p.
ISBN 978-85-5833-435-8