terça-feira, 30 de agosto de 2016

Um reino entre as formas



Uma sinceridade fingida dava palavras ao silêncio – alimentando as que, pela manhã, despertavam como heroínas sorridentes, sem o lamento da derrota ou o delírio de imaginá-la, para redimirem-se ao final na arena da linguagem, umedecidas, como se fossem compactadas ao corpo em correntezas de um curso sem som, comovendo as raízes das horas que sucumbiam aos enigmas, alimentadas pela clorofila das nervuras folhares – a inevitabilidade.

Os olhos de um verde lavado, os cabelos cacheados a colorir-lhe a beleza com as nuances da terra. Sua impaciência era semelhante à felicidade. O entardecer lento adormecia na areia, as pétalas de espuma perfumando o mar, feito de recifes e algas, deixando no seu rosto de olhar celeste o calor de uma selvagem ternura, como se, entre as ondas, caminhasse seu coração de conchas saltitantes, esverdeado e profundo sob as estrelas do céu.

Em tudo permanecia sua invisível presença, os fabulosos homens do mar, homens do sol, completariam o entardecer com sua tez de cobre e seus músculos de música distantes como o dia, as rochas de pele corroídas pela luz. Sempre adivinhava quando chegavam, amiúde, com agitada conformidade os esperava.

O terror afogava-lhe os gemidos como uma pequena vaga entre os barcos escuros, uma razão sem memória na sua inesquecível insistência de loucura. “Deus, somos uma lâmina de pó no pendor de tuas virtudes”. O rosto banhado de recordações parecia não ter idade como o perfume frio das laranjas. As folhas acolchoadas de tíbia neblina preenchiam o resto da tarde dourada.

Descansava no jardim com seu destino sem confidências ou favores, o assombro de texturas singulares, a tristeza de matriz invariável sobre a névoa espessa das serras num trajeto carregado de vazio e sombras, resplandecia, lama sólida de uma luz agressiva, nascendo num diamante rubro para iluminar outra e outra noite.

As coisas que ao mesmo tempo se alimentam de vida e morte não duram indefinidamente. No hálito frio da madrugada extasiava-se numa curta eternidade. “Todos os rostos são muitos rostos”. Uma espécie inconsciente de felicidade elemental, um estado ao mesmo tempo estático e indiferente que anula as recordações e impede ao homem trabalhado insistentemente pela terra, de confortar-se com ela, apoiado no dorso das argilas.

A secreta umidade das lágrimas deixava-lhe a alma caída junto aos pés, carícias neutralizadas pelo hábito, linhas indecisas, flutuantes, ansiedades pausadas acenando mudanças rodeadas pelo fulgor inolvidável das sementes do luar, como um olhar de criança cega que tivesse visto uma película sem tê-la visto – só os detalhes devastadoramente ternos importavam. A acha do tempo, a respiração das árvores acabaria numa cinza ligeira e rosada. Nuvens de fumo com a mesma e completa inexatidão.

Texto publicada na coletânea "A arte pela escrita IV"  Mosaico das Palavras Editora - Portugal - em 2011.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A licitude dos olhos


"A licitude dos olhos" é o meu novo livro de contos, publicado pela Editora Penalux em Maio de 2016.

"A licitude dos olhos" foi concebido ao longo de três anos.  
Chegou ao público em 21 de julho de 2016.

Com ilustração da capa feita por mim Tere Tavares.
Projeto gráfico: Dáblio Jotta

Finalização e diagramação: Ricardo Paixão. 

Com prefácio do escritor:  Krishnamurti Góes Dos Anjos
Com Apresentação da escritora:Claudia Manzolillo
Não possuo falas para o apresentar, por isso, o que  digo dele é o que os meus leitores me sopram. Eis alguns que, gentilmente, a Editora Penalux, ( Tonho França e Wilson Gorj) juntamente com esses admiráveis leitores, me apresentaram via Facebook :

"O novo livro da escritora Tere Tavares têm dado o que falar. Leia abaixo alguns comentários a respeito dessa impressionante coletânea de contos.
A LICITUDE DOS OLHOS. Aqui, Tere Tavares, que em geral explode os gêneros e faz uma prosa comprometida com o poético, cria contos com personagens, mas, longe de tramas comuns, procura epifanias, momentos raros, surpresas, revelações e trabalha numa linguagem que parte do prosaico para o transcendente.

Em “Hailla”, Tere escreve: “Real e inclemente é a vida: afiar as linhas, fiar a língua sem a fúria, enfurecer a feiura, tornar menos feio o velho, e o velho menos fúnebre.”

Conheço Tere de outros livros e também como pintora (a capa deste Licitude é de sua autoria) e sei o quanto de sensibilidade incomum a perpassa. Vale conhecê-la. (Chico Lopes, escritor. Autor do romance Corpos Furtivos [Penalux], entre outros).

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Plasticidade é o que brota dos textos deste livro de Tere Tavares. Como se estivesse diante de um quadro de textura delicada, cores, semitons e profundidades surpreendentes é assim que vejo/leio os contos de “A licitude dos olhos”. Aberto o livro, desfolham-se as páginas como se fossem uma sucessão de telas envolventes. O leitor é tragado para essas telas-textos e se mistura às palavras que descerram um mundo natural e místico. Esse é o universo que Tere Tavares descortina a seu leitor. O novo inaugural numa espécie de epifania em meio a folhas, plantas e flores. (...)
A proposta da escritora está, desde a capa do livro, bem delineada. Um ramo de olhares nos instigam à leitura. O convite está feito. “Os olhos acesos...” (Claudia Manzolillo, escritora e revisora. Autora do livro de contos “Dona das palavras”, Penalux).
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A peculiar prosa de Tere Tavares não se adequa a quadros esquemáticos, bom que assim seja, pois do contrário, se lhe retiraria o vigor de um elemento que não se pode sequer fazer análise: a imaginação. A imaginação criadora que aponta para uma verdade bem sabida e pouco exercida. Cada um deve fazer por si o próprio caminho, um caminho que passa necessariamente pelo intercambio dialético entre espírito e realidade. (Krishnamurti Góes Dos Anjos, crítico e escritor)".


"A licitude dos olhos" derrama-se assim, em cada leitura que recebo e guardo com a flor da experiência. A cada dia ele voa para algum canto do Brasil. Há-de ir longe, muito longe, pois que, publicado, carece das mãos do mundo. Há múltiplas leituras. Há personagens que o folheiam,letra à letra. Contá-lo significa emprestar-lhe a liberdade que toda obra literária requer. Eis pois o que proponho. A leitura. 
Sempre a leitura como ferramenta de eco e partilha.
Para vós, e às vossas vozes, o meu imenso obrigada.