quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Transatlanticando


Aqui ficam dois Contos publicados na Coletânea de Prosa e Poesia, idealizada por " EscritArtesGoreti Dias e Dionísio Dinis: "A arte pela escrita Nove" Edição da Mosaico de Palavras Editora, Portugal - PT - 2016. A esses amigos e escritores que se empenham pela difusão da Literatura Lusófona, a minha gratidão pela partilha.

Tere Tavares 


Mudar ou o contrário
Algumas geografias são de fato inquebrantáveis. Tocante, aquela confissão autobiográfica que brotava levada por alguém e, por outro alguém, executada.
Há tudo nesse âmago inacreditavelmente vivo, feito as imagens captadas na extensão das lagoas canceladas, como uma faísca, próxima aos ninhos das corujas e seus gritos a promulgarem defesas de algo que, longínquo, é a instância que mais preza e, mesmo calada, lhe diz que, ao adivinhar-se, é também uma sublimidade, uma sofreguidão, um lugar para os berços que nascem reclusos e, ainda assim, emitem sem cessar o clamor por um plasma benigno.
Por vezes, Hashira pergunta-se onde esteve antes de ali, em que redoma reduz-se para não encontrar-se noutra composição. Sente-se como pequenas fileiras de tinta que percorrem trajetórias opostas, que jamais deixam de se cruzar com o carinho apenas adivinhado. Não há tempo em que não deseje se repita o dia. De todas as ausências, a que é balanceada pelo consenso, é a mais temida.
Dobram-se as horas de ficar. Os sorrisos de ontem aguardam um novo amanhecer para sentirem-se novos. Há uma simulação ou um disfarce nas habitações sombreadas de fuligem, uma inexpressividade pairando sobre algo que já não vive. O mar acomoda-se. Solitário aparentemente. Ali só faltam aqueles que o invadem [e só no verão que distante ainda]. Tudo silencia e se move. Mesmo o corpo, quase aniquilado, suspira. O ar. A amargura não vertida. 
Não há piedade sobre o que se exila como se pequenas portas. Não há importância no que definha consciente de que nada há que se eternize. O sol faz desenhos sobre as construções. Tanta é a sonoridade. Os amontoados que se sublinham de beleza.

Sublima-se Hashira em seus vestidos por desfazer. Um desconhecido lhe dá guarida mesmo que quase morta: “Não se parte antes que chegue a anulação total. É preciso manter-se de pé e sorrindo, sorrindo, sorrindo – não te esqueças; gargalha se for preciso, ainda que haja o lamento e, quando lamentares sorrí, mas sorrí como um astro do qual, ninguém que tenha provado o brilho, esqueça. Há algo melhor à tua espera e não tardará. Lembra-te sempre. A mulher que és trocará de roupa novamente. Repito. Aguarda a muda. Não te apresentes antes que sintas que ela tenha chegado intacta, rumorejante. Sê”.
“Eu não sei por que me escolheram. Não sei da minha trajetória. Já não sou eu que piso as transmigrações, mas elas. Então não compreendo. Se me pedem para não desesperar, com que propósito permitem que eu insista? A dúvida retalha-me o raciocínio. Clamo por luzes. Por pés que saibam à solo e água e algum retalho de firmamento”.
A mulher dos vestidos por desfazer, se recolhe. Já não se importa se perde tempo ou se não há tempo a perder. Perde-se simplesmente. Órfão. Sob o chuveiro aceso. Toda ela aceitação e sublimidade. Um capítulo mais desmanchado na sede – agora esfuziante. Queria que tivesse sido possível não socorrer tantas interrupções. Banha-se com o unguento dos que já não suportam saber a pedras. E sobre ela dormita, descerrada, a solidão, tranquila e absoluta.
E Ankhir. Contrito. Desfeito numa tempestade isenta e não titulada, havia sido herói num único momento. O lume fosco da lua fosforescia à sua frente reconduzindo-o, tremulamente, sobre a lâmina cujo enfoque seria a metade subtraída, e, fruto, tudo o que viria derramando fugas, esticando distâncias e vigiando memórias quase fósseis no cíclico giro onde coube o seu rosto, que, inutilmente, entremeava-se, brando, fundo e silencioso nos indícios inexplicáveis. Hashira. E como um velho fogo, Ankhir falhava entre os fios moventes, exilado pelo esquecimento, cuja trama e antevisão, devastavam-no e, imediatamente, reconstruíam-no, para que atingisse alguém que tivesse, como ele, a paz como único receptáculo para a saudade. E roçava-se na forma primeira ainda que num diálogo impossível: obter a honra, o descanso elevado.


Sonhos e Sensações
Maria caminha. Dispersamente. Sair do aprisionamento que a veneração ao eu e seus tentaculares perigos edificou reivindica um esforço hercúleo. Uma vida inteira pode não ser suficiente para mover-se ao encontro do outro.

“Alta é a tormenta dos verbos inúteis. A escuridão cobre quase tudo e, nesse quase, por momentos, deposito a intenção de atrair algo que me valha. Não são os livros, capas expostas, as necessidades, as falas obrigatórias impondo-se à vida. Nem a chuva é responsável por essa suavidade que me escava. Nas minhas linhas repousa o instante inaugural de tudo o que existe. 

Os apontamentos e os olvidos veem-se assustadoramente atordoados. É da vaidade a culpa de tantas pérolas mortas. A morte é um adormecer que não sonha. Porém, as flores sempre voltam mesmo que as raízes não existam.

Indignamente sobrevivo sem saber se me cubro com a sanidade. Vou-me para o limbo antes do fogo ser armamento. Quem me dera sentir-me algo mais adiante do barro – sou minúcia a tentar escapar do que causa sofrimento, a ventania anunciada na falta. Tenho amor ao caminho que se estende às minhas frações. Velo por suspiros – que partir é próprio deles. 

Despeço-me feito um cálice de magnólias pueris. Ao longo da praia geme a garça, algo que lembra o escárnio, um apelo com retalhos de Salomão e mãos de Pilatos. Não há retorno do que se gruda na ancoração, espaço ingrato afundando as marcas do rosto, num fazer crer que há horas sem cor. Beijam-se as agitações supremas das marés. O aspecto turvo de infinitas lonjuras dá-me avisos. Eu passeio nas tocas rochosas e suas espontâneas explosões que são outro início dessa captura imensa. Bamboleios banhados de beleza. Sou essencial para despertar em ti a felicidade. Ama-me”.
O Amado retorna. Com a brevidade dos falcões. 

“Ouvi que me chamavas. Quero acolher o teu eco Maria. Vem comigo”.
Forma-se um dueto inidentificável. Há música. Há livros para pontuar. Águas com sede. E sedes comungadas.
“Um rebordar sucessivo nos tatua e nos enfaixa numa eterna juventude, tornando-nos senhores de um intervalo em que tudo se oferta sem o peso das conveniências. Somos os cúmplices afagos que nos estreitam nas lentas emoções a satisfação irrepresentável, o sorriso ancho. Críamos essa ambientação bilateral e incoercível. Confiamos no que traz o dia seguinte, que, afinal, apresenta-se, paulatinamente, posterior a nós. A complacência absorve-nos como se tudo nos pertencesse. O sulco retrátil do erro limita o curto alcance dos membros como se estivéssemos no curso imediato de uma catástrofe – um estampido. Nada compreendemos desses instantes desatados. Nada sabemos da evasão ou da perda, das angústias que nos atravessam até que saibamos dessa leveza que é superá-las. Da estática fotografia sem vestígios nem desaparecimentos. De quanto a existência nos empresta seu máximo aplauso para transportarmo-nos sem fugas.  Eu e tu Maria. Amo-te”.

http://www.escritartes.com/forum/index.php

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Publicação na revista EisFluências Edição de Outubro 2016 em seu 7º ANIVERSÁRIO.

UMA EMBARCAÇÃO PENSADA PELAS ÁGUAS
À lágrima que sorri. À grafia das faces.
Há tesouros que preferem ficar nos baús. Os tesouros inúteis.
“Serei sempre algo mais do que os sorrisos que chorei. Não há nenhuma diferença entre mim e essas estátuas; ambas somos estátuas a moverem-se passivamente, ramos de luas onde somente o solo nos retorna ao que somos, por sermos feitas à cava lentíssima das argilas que não cozem, como espelhos ao contrário, prisioneiras da liberdade. Há quantas investigações os olhos? A ausência de verdade? Do trigo ao pão, quanto é grão? Infecundidade dos devires”?
O sal não é mais que a terra. Para Josef, a rebeldia é a natureza do mundo. O silêncio aquoso desaba sobre o dia rendilhado de avencas. Epigramas de gotas colorem as fissuras das casas redobradas de transparências, sem jamais serem as mesmas casas, escorregando num desluzir contínuo e mudo a defluência das janelas, o alinhamento impassível das pausas, no pó descascado pelo vento.
O sol-pôr que adentra esculpe a chávena repleta, nunca meio vazia nem meio cheia. O cascalho se completa com vozes plissadas em halos, com profundas meditações. Nada é infecundo na poética de edificar (se), ou desejar criar um mundo a partir de si. “Deixa-me nascer somente agora, neste pequeno olvido de estrelas”. Perdurava intransferível, suplicante como o ar onde jogava letras, letras e mais nada, para desgrudar o mosto inodoro das asas. Porque não lhe foi dado ser, senão um estar. Não somos antigos nem moços, somos as lacerações ardilosas do tempo, a raça humana, um bando de necessitados. Josef é a incredulidade a dizer que ainda é possível acreditar num coração com orquestras. E há nele um céu aceso e um sopro musical.
“Existem momentos em que redescubro as finalidades da luz, o lusco-fusco remoído à clareza do breu. Porque a palavra carrega a pungência de tudo o que vive, como num trabalhoso ócio, transmutando-se em seiva de linguagem inata do que me integra, ainda que não conheça. Porque fora do tempo existe o espaço, a não existência ou só um retalho metafísico, outras solidões, também sós, a palha que virou chapéu. Quanto de mim sou eu nisso tudo, qual dos meus silêncios murmura o inteiro do que já não mora aqui dentro? Enrolo a língua dentro das folhas, folhas fora, folhas todas, mudas folhas. Sou folhas soltas, línguas soltas. Ondulo nas folhas para existir. O meu rosto é uma folha, um amontoado de folhas nervuradas pela vontade. Lanço-me nos horizontes permissíveis, feito sol, feito raio de borboletas, de não me guardar, não mais. Ah, pudesse eu compreender as ervas, a mastigação dos pássaros, cinco selvas depois dos poros sulcados na escuridão abissal das mãos”.
Josef perdura no cicio oculto das cigarras e para não perder-se na sinceridade de si mesmo, agarra-se ao vento, traindo as amarras que o libertam. Anota o futuro dos papéis dentro das lágrimas. A casa emudece, como antigamente, como sempre, como as palavras e as sínteses ambíguas, sentimentos e sentidos dizendo além dos instantes que veem morar nas linhas quase antigas da sua face, expressão e significância moldando-se entre os desvãos que vão ou não formar.
Josef nunca sabe o alcance, as envergaduras de algo antes do arremesso. Mas, é possível que haja, para ele, algo a intuir claramente, a obscurecer a inexatidão das causas, escassez ou demasia, uma fragrância obtida no ato de camuflar ou exibir, na visão ou na cegueira, um corredor que lhe insinua o caminho ilusório e imenso da linguagem; sementes da cor, do sonho que transfiguram a arquitetura do seu sopro, o balbucio inclemente da imaginação. Dias de decisões escolhidas a esmo que o sangram e o singram como círculos de chuva seca, como páginas sem aridez, como Josef.

(texto do livro "Vozes & Recortes" contos Editora Penalux 2015)
BY Tere Tavares
Cascavel - PR - Brasil
http://m-eusoutros.blogspot.com.br/

Grata à Carmo Vasconcelos e Henrique L. Ramalho de Lisboa, PT, pela publicação desse texto na revista "EisFluências" Edição de Outubro 2016 em seu 7º ANIVERSÁRIO.
Com meus cumprimentos e parabenizações.

domingo, 30 de outubro de 2016

Participação na Revista Escritoras Suicidas - Edição 52 - Outubro 2016


Agradeço imenso o convite para participação nessa Edição caras editoras Adelaide Do Julinho e Mariza Lourenço.

Confiram:
edição 52 | outubro de 2016

uma mulher de sorte | fome | placenta

5 minicontos


Do que o circulo ouve


Elbiah não deixa nunca de finalizar a frase antes que o sono chegue. Na sincronia do mar, sua alma navega como uma canoa subtraída que, talvez, pouse numa praia inóspita e resgate uma aurora a descer com sonhos e impaciências no compasso em que dançam as ondas. Como se esperasse acostumada à ausência, Elbiah agarra-se ao sargaço que escurece a orla, suporta maresias e ventos como um carinho gestado, impregnando a pele das pedras. No engodo de suspender-se, deixa-se ficar com o fervor dos veleiros esquecidos, chamados uma mulher de sorte ou desejos ou cavalos de ébano: "não me furtei de ser-te o sonho infuso nem de sonhar-te. Chegarei a tempo de roçar as chuvas e aclarar-me nos teus gestos".



Bradha


Era linda como o canto dos pássaros refletido nos rios. Deliciava-se no calor das tardes em que lhe coube a doçura de um invólucro sem imperfeições. Era mais que o silvo sedento de um ser conflituoso, como naquele dia em que ousou confiar num sentido esquerdo, terna como os anjos que, displicentemente, lhe sopravam segredos que lhe escorriam do rosto feito um poema recém-nascido. Ela não se pertencia. Não tocava a realidade com o porquê buscado, e o buscado porquê de haver chorado um mar sendo apenas uma gota agudizada.

E ali deitar outra impossibilidade, outra tolice impensada. "Superar, menina. Superar. Que a vida é dos saberes e não". Ela não lavou os cabelos. Protegeu os ouvidos com o improviso — o ar frio tem lá seus caprichos, o frio artificial é ruim como tudo o que é artificial. Por vezes, o conforto gera o seu oposto. Há que saber do inconsciente das poses e das posses. A natureza não aceita interferências ou excessos sem cobrar a conta. Inércia foi tudo o que lhe restou naquele não dia. Era uma mulher de sorte. Afinal, delgada é a linha entro o acerto e o tropeço.



Há na lista


Alguém, por ignorância, sugere que eu encontre respostas no que executo ou deixo cair no solo como trabalho. Uma obra nunca dirá algo de seu autor. Não estou atrás de respostas. Acho. Minha culpa? Não sei se tenho alguma. Talvez minha culpa seja a ausência de culpa. Sou leiga, não pretendo analisar nada. Não sou feita de convicções — há tempo desamarrei os sapatos. Não há desculpas nesses parágrafos tão gastos e sem gosto. Penalizo-me dos que me atormentaram — a culpa, no caso, é deles, como é deles a fome de perdão. Coisa outra que não há-de sufocar-se na luz.



Pietá


Uma lacuna misteriosa captura a fome vagante e nada colhe senão a falta de escolha. A urdidura cujo ponto foi antes e também nunca: "sinto certa pena e uma pena certaO horror da pedra é ser pedra. Saber a pó. Sem cor. Lembrar-se da última vez que foi liquidamente saciada".



Mutismo


Essa terra possui excessos de aridez que duram séculos. Um velório sob o sol ardente indica uma placenta no pino de uma árvore seca. Terras que nunca sabem dos invernos e das vegetações.

Muitas curvas depois, ele avista os canaviais e os cortadores que usam um uniforme escurecido pela queima inclemente, ateada à cana e à cana atada. Fuligem e fumaça — o ar irrespirável. Passa pela usina, o cheiro nauseante do que era transformado em combustível ou açúcar. Ele chega a São Miguel dos Milagres (somente malogros). Enormes caminhões transportadores de cana-gente desfilam à beira do caminho, dos dois lados dele, o são e o não; o dono das terras, os detentores da miséria e da indigência, aparentemente passivas e apavorantes. Ninguém se importa em melhorar de vida, ele não sabe se pelo longuíssimo tempo de submissão ou por gostar da 'proteção' de um Pai inumano que, por pouco que lhes dê, dá-lhes a sobrevivência, talvez a proteção ilusória para um infortúnio ainda maior — o de se acomodar à miserabilidade — todos pareciam gratos e felizes, comendo suas carnes assadas nas calçadas a menos de meio metro da estrada, ouvindo músicas pouco edificantes, dançando naquele ritmo e naquele rito sem grito e sem fim — um cordel de imensa tristeza; o desgarro em que aquelas gentes estavam [ele esperava que não para sempre] mergulhadas. Terras cuja geografia de enganos e derrotas jamais é palavra.


Tere Tavares (Cascavel/PR). Escritora e artista plástica, publicou os livros A Licitude dos Olhos (contos, Penalux, 2016), Vozes & Recortes (contos, Penalux, 2015), A Linguagem dos Pássaros (poesia, Patuá, 2014), Entre as Águas (prosa, 2011), Meus Outros (poesia e prosa, 2007) e Flor Essência(poemas, 2004). Participa de várias antologias e tem poemas/textos publicados em diversas revistas e jornais literários. É colaboradora do blogue Dardo. Participa do portal lusófono litero-artístico EscrtArtes. Integra a Academia Cascavelense de Letras, onde ocupa a cadeira de número 26. Edita o blogue M-eus Outros.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A licitude dos Olhos - Livro de Tere Tavares - no Portal Cultura Alternativa

Matéria do Portal Cultura Alternativa:
Prefácio (por Krishnamurti Góes Dos Anjos do livro "A licitude dos olhos" - de Tere Tavares contos Editora Penalux 2016).
Para leitura completa acessem o link abaixo:

faltahttp://www.culturaalternativa.com.br/literatura/outros/item/9628-um-olhar-que-nos-falta

Poema Luas de Tere Tavares é musicado por Anand Rao

É com muita alegria e emoção que partilho esse trabalho feito pelo Anand Rao, que vem a ser o poema "Luas", de meu livro "Flor Essência" musicado por ele. Meu agradecimento vai também para Agnes Adusumilli muito especialmente.
A música... ofereço, com igual gratidão, às amigas, amigos, leitoras e leitores que nesse mural me dão o eco da presença. Ouçam a partir dos links abaixo:

https://soundcloud.com/anand-rao/luas-anand-rao-e-tere-tavares

Luas (Anand Rao e Tere Tavares)
http://www.culturaalternativa.com.br/musica/outros/item/9599-tere-tavares


https://soundcloud.com/anand-rao/luas-anand-rao-e-tere-tavares?utm_source=soundcloud&utm_campaign=wtshare&utm_medium=Facebook&utm_content=https%3A%2F%2Fsoundcloud.com%2Fanand-rao%2Fluas-anand-rao-e-tere-tavares

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Um reino entre as formas



Uma sinceridade fingida dava palavras ao silêncio – alimentando as que, pela manhã, despertavam como heroínas sorridentes, sem o lamento da derrota ou o delírio de imaginá-la, para redimirem-se ao final na arena da linguagem, umedecidas, como se fossem compactadas ao corpo em correntezas de um curso sem som, comovendo as raízes das horas que sucumbiam aos enigmas, alimentadas pela clorofila das nervuras folhares – a inevitabilidade.

Os olhos de um verde lavado, os cabelos cacheados a colorir-lhe a beleza com as nuances da terra. Sua impaciência era semelhante à felicidade. O entardecer lento adormecia na areia, as pétalas de espuma perfumando o mar, feito de recifes e algas, deixando no seu rosto de olhar celeste o calor de uma selvagem ternura, como se, entre as ondas, caminhasse seu coração de conchas saltitantes, esverdeado e profundo sob as estrelas do céu.

Em tudo permanecia sua invisível presença, os fabulosos homens do mar, homens do sol, completariam o entardecer com sua tez de cobre e seus músculos de música distantes como o dia, as rochas de pele corroídas pela luz. Sempre adivinhava quando chegavam, amiúde, com agitada conformidade os esperava.

O terror afogava-lhe os gemidos como uma pequena vaga entre os barcos escuros, uma razão sem memória na sua inesquecível insistência de loucura. “Deus, somos uma lâmina de pó no pendor de tuas virtudes”. O rosto banhado de recordações parecia não ter idade como o perfume frio das laranjas. As folhas acolchoadas de tíbia neblina preenchiam o resto da tarde dourada.

Descansava no jardim com seu destino sem confidências ou favores, o assombro de texturas singulares, a tristeza de matriz invariável sobre a névoa espessa das serras num trajeto carregado de vazio e sombras, resplandecia, lama sólida de uma luz agressiva, nascendo num diamante rubro para iluminar outra e outra noite.

As coisas que ao mesmo tempo se alimentam de vida e morte não duram indefinidamente. No hálito frio da madrugada extasiava-se numa curta eternidade. “Todos os rostos são muitos rostos”. Uma espécie inconsciente de felicidade elemental, um estado ao mesmo tempo estático e indiferente que anula as recordações e impede ao homem trabalhado insistentemente pela terra, de confortar-se com ela, apoiado no dorso das argilas.

A secreta umidade das lágrimas deixava-lhe a alma caída junto aos pés, carícias neutralizadas pelo hábito, linhas indecisas, flutuantes, ansiedades pausadas acenando mudanças rodeadas pelo fulgor inolvidável das sementes do luar, como um olhar de criança cega que tivesse visto uma película sem tê-la visto – só os detalhes devastadoramente ternos importavam. A acha do tempo, a respiração das árvores acabaria numa cinza ligeira e rosada. Nuvens de fumo com a mesma e completa inexatidão.

Texto publicada na coletânea "A arte pela escrita IV"  Mosaico das Palavras Editora - Portugal - em 2011.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A licitude dos olhos


"A licitude dos olhos" é o meu novo livro de contos, publicado pela Editora Penalux em Maio de 2016.

"A licitude dos olhos" foi concebido ao longo de três anos.  
Chegou ao público em 21 de julho de 2016.

Com ilustração da capa feita por mim Tere Tavares.
Projeto gráfico: Dáblio Jotta

Finalização e diagramação: Ricardo Paixão. 

Com prefácio do escritor:  Krishnamurti Góes Dos Anjos
Com Apresentação da escritora:Claudia Manzolillo
Não possuo falas para o apresentar, por isso, o que  digo dele é o que os meus leitores me sopram. Eis alguns que, gentilmente, a Editora Penalux, ( Tonho França e Wilson Gorj) juntamente com esses admiráveis leitores, me apresentaram via Facebook :

"O novo livro da escritora Tere Tavares têm dado o que falar. Leia abaixo alguns comentários a respeito dessa impressionante coletânea de contos.
A LICITUDE DOS OLHOS. Aqui, Tere Tavares, que em geral explode os gêneros e faz uma prosa comprometida com o poético, cria contos com personagens, mas, longe de tramas comuns, procura epifanias, momentos raros, surpresas, revelações e trabalha numa linguagem que parte do prosaico para o transcendente.

Em “Hailla”, Tere escreve: “Real e inclemente é a vida: afiar as linhas, fiar a língua sem a fúria, enfurecer a feiura, tornar menos feio o velho, e o velho menos fúnebre.”

Conheço Tere de outros livros e também como pintora (a capa deste Licitude é de sua autoria) e sei o quanto de sensibilidade incomum a perpassa. Vale conhecê-la. (Chico Lopes, escritor. Autor do romance Corpos Furtivos [Penalux], entre outros).

*
Plasticidade é o que brota dos textos deste livro de Tere Tavares. Como se estivesse diante de um quadro de textura delicada, cores, semitons e profundidades surpreendentes é assim que vejo/leio os contos de “A licitude dos olhos”. Aberto o livro, desfolham-se as páginas como se fossem uma sucessão de telas envolventes. O leitor é tragado para essas telas-textos e se mistura às palavras que descerram um mundo natural e místico. Esse é o universo que Tere Tavares descortina a seu leitor. O novo inaugural numa espécie de epifania em meio a folhas, plantas e flores. (...)
A proposta da escritora está, desde a capa do livro, bem delineada. Um ramo de olhares nos instigam à leitura. O convite está feito. “Os olhos acesos...” (Claudia Manzolillo, escritora e revisora. Autora do livro de contos “Dona das palavras”, Penalux).
*
A peculiar prosa de Tere Tavares não se adequa a quadros esquemáticos, bom que assim seja, pois do contrário, se lhe retiraria o vigor de um elemento que não se pode sequer fazer análise: a imaginação. A imaginação criadora que aponta para uma verdade bem sabida e pouco exercida. Cada um deve fazer por si o próprio caminho, um caminho que passa necessariamente pelo intercambio dialético entre espírito e realidade. (Krishnamurti Góes Dos Anjos, crítico e escritor)".


"A licitude dos olhos" derrama-se assim, em cada leitura que recebo e guardo com a flor da experiência. A cada dia ele voa para algum canto do Brasil. Há-de ir longe, muito longe, pois que, publicado, carece das mãos do mundo. Há múltiplas leituras. Há personagens que o folheiam,letra à letra. Contá-lo significa emprestar-lhe a liberdade que toda obra literária requer. Eis pois o que proponho. A leitura. 
Sempre a leitura como ferramenta de eco e partilha.
Para vós, e às vossas vozes, o meu imenso obrigada.



domingo, 26 de junho de 2016

Publicação na Revista EisFluências

A Revista EisFluências, PT, do mês de Junho/2016 na sua 41ª Edição, traz O SUPLEMENTO JUNINO E DIA DOS NAMORADOS, do qual participei com o texto "Rever" do livro "Vozes & Recortes" (Penalux,2015) e também com a ilustração/pintura "Namorados".
Agradecimentos especiais para a equipe editorial:
O Director
Victor Jerónimo
(Portugal/Brasil)
A Directora Cultural
Carmo Vasconcelos
(Portugal)
O Web Designer
Henrique L. Ramalho
(Portugal)
A Proprietária
Mercedes Pordeus
(Brasil)
Confiram!
Boas leituras.:

terça-feira, 17 de maio de 2016

terça-feira, 19 de abril de 2016

Escorregadia



Minha participação na Revista "EisFluências", abril de 2016:

htmhttp://www.carmovasconcelos-fenix.org/revista/eisFluencias/40-Abr16/eisFluencias_Abr_2016_6_40-54.htm

ESCORREGADIA
Por Tere Tavares

“Os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito no mundo; nascer sem asas e fazê-las crescer”. (José Saramago)

“Entre nós, a fotografia. Entre palavra e cor, a pausa, o pouso único de vários voos. Pergunto-me o que faz esse fragmento de ferida sobre a alma da minha face? Uso os derivados das abelhas, coisas feitas pelo meu pai antes que descansasse. Tenho saudades da forma como brincávamos a respeito dos ornamentos vincados nas peças de alumínio e ferro torcidas à mão. Sinto dor nos trapézios e nos deltoides. Imagino o que teria feito não fossem esses pesados troncos suspensos nos meus braços. Nas mãos tão finas e longas e elegantes, os meus nervos, trêmulos, já não caçam nos prados. Onde se esconderam os meus pássaros? Quais dunas deslindam o meu deserto, o meu dilúvio irresignável? Meus olhos querem adormecer. Meu sono já não é o mesmo há muito, mas como eu queria dormir. Simplesmente dormir o meu começo dentro do sol. Faço de sílabas a minha tocha, de videiras as minhas frases. Hoje um pouco mais, pois a dor é tátil e sonolenta, e me soletra. E, de certa forma, me une a algo que desconheço, talvez, por ser-me tristemente semelhante. Eu calo e espero, por que as cerejeiras devem deitar as flores e dar vez às folhas que darão vez à sombra luminosa onde descansarei.A vida é feita de nuanças. Que me seja possível, enquanto malga da cor, incorrer no tempo usufruindo mais da companhia dos pássaros do que imaginar-me portadora de asas”.

A fase do sonho havia morrido. O pesadelo abrira as portas e suas bocas falavam.

Que estapafúrdia ilusão havia irrompido dentro de tudo? Avistavam-se as propensões intocáveis, nem mesmo o céu as banhava. Retornava das rochas como se viesse da água, sem saber em que parte derramar seu peso. Nem imaginava o que levitaria à sua direita, se seriam os próprios medos, o corpo formado de afluentes entrecruzados em outra história – toda uma passagem, talvez vida, infância, adolescência, maturidade, o que acreditou que estaria na outra boca do túnel.

Coisas inventadas em que a ingenuidade acredita, o lusco-fusco de quem anda sobre nuvens e conhece a fundo a linguagem emudecida da solidão. De que abertura, de qual imperfeição lhe advinham os avanços de outros pesadelos? Sem salvação? E a vida era as festas e as viagens suspensas nas falhas das janelas, das árvores anônimas, espreitando verdades frívolas. Raramente, enquanto os passos se distanciavam das grutas, uma luz inacessível também esperava. Sustenidos de uma ópera decalcada, no sofrimento, davam-lhe acordes de uma canção ainda mais triste e solitária. As órbitas do rosto já não iluminavam as estrelas. Ecoavam elos de incêndio. Uma música reverberando o que as mãos não tocavam. Os halos de luz eram feixes arbóreos molhando o sopro dos deuses e a impossibilidade de vasculhar o futuro.


“Perduro, só, sem estar sozinha. Afago a sorte se a sorte me sorri. Ninguém me sabe além dos ramos que em mim se calam sem fingir. Nada que já não vicejasse no artifício de mim mesma. Ansiedades que serão, amiúde, uma lembrança benévola.”


O respirar profundo nasce-lhe de um plexo meditativo. Não conhece outro curso que não seja expandir-se, num mimo, num suspiro que se molha ao despir o desespero dos segundos. À contraluz, no reflexo das epigramas, eclodem estrofes de sabiás.


“Como chuvas brandas. Na primeira ondulação onde antes explodiam girassóis, retornava ao recôndito da sinfonia, das flores. Afagava-lhe as memórias, onde o espaço de mim era ainda o meu ser estendido na reabertura das ervas, na curva de outrora a confluir nos ecos do presente ao deixar de partir. Um dia – sou o agora, sou qualquer uma dessas fontes sem saber qual, esperando jamais saber – houve a doçura na corrosão do tempo que se perdeu no futuro angular da canção. Houve mais sol e mais lírios, outro nascimento a polinizar as colmeias, onde o vento se molhava com o peso das palavras, e, sim, houve uma brancura no céu e um espelho. Era minha a imagem que brotava das nuvens, o desenho impuro gravando o que se recusava a sucumbir distante do riso, da terra revolvida. Um longo voo aparecia para as breves noites sem asas, para secar o meu corpo onde se costurava o vento e se despiam as lágrimas, e riscar, com os cílios, a dor, e perceber que o ar não chorava, e a força das raízes era profundamente bruta. Eram asas construídas de pedaços para não omitir aos pássaros a boca da paisagem absoluta – até que falasse, por dentro, somente a limpidez de antes. Algo que eu amava e se transformara em partes de mim mesma: uma soberana inocência capturando o silêncio”.
Levou à sua ilha os sentimentos que lhe diziam despertares. No escarlate das percepções, carregou a caligrafia renitente, como cerâmicas derramadas nas calçadas, como a nodulação das argamassas. Sentia paz. Uma paz remendada de tristeza, como se a vida acenasse de longe, com seus campos vincados de solidão, ao meio dia de um pensamento sem nexo e sem registro, apenas para lembrar que já não lembrava. A memória graduando-se como uma pena que sentia, e já não sentia além daquela pena que nada era e só lhe restava beber o sumo da terra antes da ceia.

Depois que tudo cessava sobrava o verbo como subserviência da sede e não fossem esses medidores de restingas, se revalaria à florada dos ipês.

Se soubesse por onde se esculpem os peregrinos. Se as pontas soubessem do cinzel, com que agulhas se afiam os caminhos. Se fosse uma lâmpada a balançar sobre a ruptura das asas acima do que se perdia. Asas solitariamente aninhadas na pedra e no musgo em secura de pedidos. Terra morna onde a tempestade se abre mais do que a nuvem. Se pudesse sorver das areias o que escavava com os olhos e suprimia dos cactos. Se decifrasse a cura das feridas antes de perscrutar porque se machucava. Se a prudência não fosse confundida com a covardia. Se calasse o sedento veio que lhe perpassava os pés, se apontasse em qual céu de arbustos nômades aportaria alguma estrada, algum nome de anjo.

“Por instantes eu odiei aquele nome. Aqueles olhos, sob o casaco, nunca foram manhãs. Esse dia se arrepia dentro de uma avenida de aves. Desce das nuvens, que se abrem em chuva e chama, o sonho de madressilvas, de uma folha, de um livro desamparado, e a folha é um enorme bloco desfeito, uma sereia de quase três décadas. Essa dor se afasta como se cobrisse as ruas, que já não são desertas. Então não há regresso do canto, nem do sol ardente de ontem, que era uma proa reclinada na voz que passava sobre a madeira e iniciava uma canção distante. Como se eu colhesse o eco das madrugadas por nascer, os lugares sem ruídos, onde secasse a intenção de haver raízes, e mordesse as medalhas, as sementes ausentes de águas”.

do livro "Vozes & Recortes" Editora Penalux- 2015.
Tere Tavares
Cascavel - PR - BRASIL
http://m-eusoutros.blogspot.com.br/

Gratidão à Carmo Vasconcelos e Henrique L Ramalho pelo convite e publicação. 

domingo, 3 de abril de 2016

Mulheres pela Paz - Edição Especial da FÉNIX 2016

TUDO É VIDA

Tere Tavares

Desse distanciado recanto que não sabe à conflitos,
Promulga-se uma razão na brancura branda
Onde os barcos aspiram os peixes,
Os rios e as matas intactas.

O homem vive sem outra sede que não seja a da água.

Há um empenho,
Um estado de alma enobrecido pela mansidão
Que se espalha, sossegadamente, em cada coração e em cada criatura.
A chuva adormece e, sobre tudo, paira uma doçura enobrecedora
Antecipada na paz que é tão rara e, Deus, tão necessária.

Tere Tavares
Cascavel - PR - Brasil
http://m-eusoutros.blogspot.com.br/




http://www.carmovasconcelos-fenix.org/LOGOS/PAZ-2016/PAZ-2016-51.htm 
http://www.carmovasconcelos-fenix.org/LOGOS/PAZ-2016/PAZ-2016.htm

Obrigada, muitíssimo, querida Carmo Vasconcelos eHenrique L. Ramalho. pela oportunidade de participar com meu trabalho de poesia e de artista plástica nas ilustrações das páginas 
 Parabéns à vossa valorosa atuação à frente da Arte. Grande abraço.

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Para ver as ilustrações basta clicar no número das páginas acima.
Toda a edição dessa revista é um primor, e merece olhares e leituras especiais.

quinta-feira, 17 de março de 2016

So quem nasce pássaro fere o dorso com asas

Só quem nasce pássaro fere o dorso com asas

Quando a incerteza lhe suga a umidade, a pele exala a sede dos passos, a descendência das colorações, das searas na erupção das sementes, o calor dos astros e o arrebol de raízes indizíveis, das fimbrias da terra. Como cascas para além das clausuras, vê-se, à mesa ligeira, um alvo minúsculo posto à prova.
É como o solo dos cardos apertando-se nos prados abertos a cada beijo fito nos mastros de ontem; como um tímido tumulto arfando sobre as tulipas. Desce desmedido o rosto de música vindo de longe, muito longe, estrada e casa. Em soluços ascende-se na inebriante presença do espírito absoluto. Parecer-se a algo para ser alguém, ser alguém para ser um, ou nenhum. E é calor perfumado e quase frio, orientando os arrulhos, o meio-dia que, aos poucos, o conduz ao silêncio que se diz e o dirá, se dará ou será, como se, ao olhar-se, revirasse a eternidade, ou tornasse as fábulas absolutamente reais, para prodigalizar cada segundo em magnífico ideal. Como um outro vindo de si para abrir trilhas e ver, depois, as manadas a pisar o mesmo pasto. Não necessitava adiar a urdidura do seu íntimo. A quem pertenciam afinal as trincheiras?
O fato de ainda respirar, a cinza das águas sempre obedientes à chama, ao cinzel corrosivo de uma alegria nunca sonhada, anunciavam-no qual aroma suspenso na língua silenciosa da erosão. Desocultava-se do encarceramento e simplesmente acontecia. Partindo os juncos, sem diminuir-se, no convexo da nuvem, como se tivesse livros na ponta dos pés, dando ritmos ao som das manhãs. Temia que lhe saísse, pela linguagem, o relicário da alma e fosse morar em drusas de névoa, em florestas irresistíveis, plenitudes, como se, ao dançar, se imobilizasse.
Vem para conferir a fome estonteante do traço, mas alguém lhe dá ciência do que está para além da cor e da forma. É a carne dobrada; o corpo desconexo que salta no escuro, dando-se ao tempo, à indeterminabilidade, à minimidade de tudo o que sente. Percebe e remexe, além do seu itinerário de ostra sem concha, a mina d’água cuja fortuna é somente escorrer dentro da sede: “Conheço-me só nessas gotas, nesses bilros conflitantes de borbulhas e membros doridos. Que acidez me cobre as feridas? Isento-me de tudo, sobra-me uma quase fuga ou desistência, o desencontro da sanidade para prosseguir como fui antes que me fosse infundida a perfeição das máquinas, o desagrado das gentes, os desenganos, a impossibilidade a me cercar, tolher, bramir, submeter. Sou córrego e planta, vitória-régia, ninfeia, limo aguçado a porfiar-me de petúnias, voz clandestina, digna e repleta, que habitam as mãos nuas e cabisbaixas, solo a par do solo... colho a poeira, a dança no escuro, o que restou no desencarceramento da ternura, único círio cuja chama não se dissipa nem adormece, e vem banhar-me, isento de faces. O céu geme o meu silêncio, a metáfora inconclusa que de mim transborda”.
Distraem-se a mente e os soluços nas denúncias do inverno, no perímetro do tempo que, colorindo-se de vácuo, sorvem a flor comunicante que não finda quando eclode, em secura de fontes e seivas, na biologia dos diálogos imperceptíveis, nas dores insistentes, como se lessem as pétalas e pintassem farpas nas tranças, num debrum oxidado de luas – matriz de ar e de crepúsculo. Ele é os desencontros pretéritos, esfumados em palavras invisíveis que a liberdade tece numa voz de elo, e, no calor difuso das geadas, descobre que o segredo é invadir a estranheza das coisas.
Ele planta as cores que não cabem na ânfora ao obedecer à sinuosidade do amor – no matiz gradual dos olhos, o pulsar do impulso de proferir-se, como se, em suas espáduas, tatuasse algum sentido inusitado. A sua alma é também o mundo – ninguém a difere do que é. Exceto a armadura de sonhos que jamais deixa de ser o lado em que nasce inteiro e seguro de si mesmo. Quando então acorda próximo aos caules do ocaso, à sincronia ardente e silenciosa cicunscrita nas migalhas nunca proferidas, sorrindo seus reflexos à lingua exangue d'água – para, e só assim, compreender que a descida é posterior à escalada.
(do livro "Vozes & Recortes" Editora Penalux 2015)
Tere Tavares
Cascavel - PR - Brasil
Agradecimento especial à Carmo Vasconcelos e Henrique L. Ramalho , de Lisboa, PT, pela publicação na Antologia LOGOS Nº 19 MARÇO - 2016. Página 42/Prosa.