Conto do livro Destinos desdobrados, 2021, Tere Tavares, Editora Penalux
![]() |
Arte digital; "Árvore"- 2019 Tere Tavares |
Das
coisas que se tornam pelas mãos juntas
Thuarta, fixa os olhos para
bem longe da varanda. Lembra das minúcias marítimas e das fronteiras
insubmissas. Premedita e calcula. As estrelícias revisitam a ave-do-paraíso:
[imitando-a, visando-a]. Clamam pelo não perecimento e pela fuga das
normas. Ouve-as e perambula pelas suas
formas. Por vezes, a perspectiva é embaraçosa, mas evidente. Ir-se, entretanto,
é imprescindível. Sapevo chi sei. Lê como se um floco de frescor pousasse sobre
as úmidas concavidades das avencas – não florescem, mas, para Thuarta, é fácil ver-lhes
as folhas, as hastes vibrantes, os pecíolos frios e negros como cílios de
além-mar, adiante da calmaria sonhada ao pé de alguém que recolhe cada uma de
suas películas; o vento as evita para não as ferir e elas se deixam caber num
vaso à parede feito sentinelas, silhuetas difusas às suas costas.
Estrelas vermelhas em
meio ao verde e tons de terra dizem sóis às metáforas que, mesmo mortificadas,
sobrevivem ao tempo. Ela diz a si mesma:
“Avalio o voo que me devo. Ignoro que aprendo muito sobre os pássaros que nunca
se escusam aos saltos no escuro. Tenho a coragem e a vontade de viver como
primazia. Não me defino, tampouco definho. Defendo-me. Sou humana e falível. É
tão frio morrer de frio. Penso, novamente, no mar. Se os pés deslizarem por
entre as ondas, não haverá nenhuma filosofia que os detenha. Não sei se
acontecerá nem o que penso: se sou outra invenção do que sou, não sei; sou para
mim mesma oculta, escuto essa lição iniciática para além desse ar profano. Novo
ano, será? ”.
Ela retorna à outra
leitura como se antevista: “Uma rosa es todas las rosas. Tus dones son una
extensión de tu alma. Cultivas la sabeduría solo cuando tienes dudas”. Apenas quando
se percorre o mistério da própria obra ela será portadora de alguma perfeição.
A arte permeia a subjetividade como um cão fiel ao seu dono e faz Thuarta sentir-se
como se à própria paisagem. Caminha-se longuíssimas distâncias mesmo quando não
se vive muito. O que é alijado do bem subverte a alma. À espreita, está o que se
eleva ao cansaço, à corda de aço invisível; bravios espaços de parições
incertas. Algumas pérolas nascem do sofrimento, mas também da felicidade. Nem
tudo sucumbe ou fenece no fogo, na fumaça que anoitece a chuva. Porque caminhar
sobre as pedras, confrange-te a viver os muitos depois, desde os breves
estampidos à escuta solitária, do caderno inumerável à necessidade de reintegrares-te
a cada momento. De quando te inscreves em algo inquisitivo. Do intuir e do
ficar perplexo. O nexo que te adivinha. Então, passas a medir-te pelas águas e
transformar todas as dores e todas as faltas num dilúvio.
Fortuna crítica:
Uma tristeza enorme o que se passa na Amazônia , o texto tradu-la bem.
Um texto de qualidade composto em atmosfera, diria, de quase sentido elegíaco. O poeta (no sentido de vate, daquele, vê mais longe), tem os olhos em geral atentos e vigilantes voltados para o que acontece no mundo, num continente, num país específico. Ele solta as asas da imaginação a fim de não só denunciar os males dos homens, mas também de transformar a realidade tenebrosa, desumana, indiferente, em linguagem literária. Poesia também é combate. Nem é preciso citar nomes, lugares, tema situação trágica, nome dos bois para sabermos do que se trata num poema assim elaborado, mal saído do forno, contra as absurdidades dos homens dos homens. O desenho, por si só, reforça a realidade tenebrosa a que podemos chegar em tempos de obscurantismo múltiplo.
Apocalipse que se constrói a cada dia. O homem não aprende as lições do passado e incendeia o que não valoriza. Esquece até da sua própria casa. O que se vê hoje? Matança em todos os sentidos.
Lembrei das queimadas
Poeticamente lindo! Triste, sentido na pele. Maravilhoso, você existir.
Adquira seu exemplar com a autora pelo facebook: https://www.facebook.com/tere.tavares.1
Nenhum comentário:
Postar um comentário