Preciso da arte como instrumento de cura, inclusa a arte de viver.
Fragmento do conto "O isolamento e a vida" do livro Luz, contos, 2024, edição da autora Tere Tavares
Fortuna crítica:
Preciso da arte como instrumento de cura, inclusa a arte de viver.
Fragmento do conto "O isolamento e a vida" do livro Luz, contos, 2024, edição da autora Tere Tavares
Fortuna crítica:
Pequena ontologia dos ninhos
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| Livro destinos desdorados de Tere Tavares |
Guida Luis, de Portugal,
Excerto fabuloso, querida amiguinha Tere, ao longo de nossa vida, foi uma passagem de facto, como se fôssemos um rio, não paramos, para nós questionarmos sobre nada, vivemos apenas, de um modo passageiro, outras vezes menos, floreados pelo meio para enganar a verdade e pronto!
Geovane Fernandes Monteiro, do Piauí
Texto do eu que se salva ou se preserva na própria crise. Quando a trama é a problemática, estamos diante da situação humana no que há de feridas abertas e sobrevivemos do corte de viver. Não que haja sadismo, mas coragem, vontades sem nomes, hesitação, devaneios dos destinos, matéria desdobrada. A busca é o sentido da vida.
Os editores,
Hoje, no Amaité, a prosa poética de Tere Tavares. Confiram a narrativa - raiz com suas nuances, possibilidades e aproximações de leituras para além da superfície textual.
Edição de julho 2025
SEM PENA DE TER
A Igreja tinha um cheiro de antiguidades. Um balcão repleto de livros cobertos de pó obstruía o corredor. Algumas abelhas se distraiam pousando em velhas imagens que rodeavam as paredes. O rapaz passou as mãos de leve nos pés quebrados de um Santo Antônio. Uma lástima deparar-se com tudo naquele estado. Ele também tocou os bancos de jacarandá. Sentou-se.
Tanta atenção lhe despertava o lugar que quase esquecia o que o levara até ali.
A moça da rua de ontem. Como não atender-lhe as dúvidas, esquecer-lhe o tom suplicante?
Daria cabo do seu egoísmo cumprindo a promessa. Antes rezaria pelos mortos com a mesma devoção que o faria para os vivos. Pediria pelo fim da angústia dita esperar, da enfermidade nominada crer, e tudo o mais que lembrasse as tristes ilusões do mundo. Pediria perdão pelo que pedisse e pelo que pensasse.
Naquela manhã de Maio morrera a morte do seu olhar na moça da rua de ontem. O assíduo assédio daquela alma se estendia sobre o silêncio daquele cenário gasto. A manhã de Maio era ali, com ele, ajoelhado, mentindo qualquer escrúpulo, revelando ocos de fora e de dentro. O resto era medo que o deixava na margem lúcida de próximas águas. O repasto, a moça da rua de ontem.
Vestia a viva ânsia de sair o mais depressa dali e levar-lhe o que a cobriria como a uma rainha. A sua. A imagem de ouro de Santa Rita. Um pé na escadaria e outro na rua. Voltou. Queria também os livros para salvar o amor no amanhecer e no poente.
Nota: texto premiado no banco de talentos Febraban de 2007, por unanimidade, dos jurados da UBE – União Brasileira de Escritores. Conto publicado na antologia Febraban, 2007, no livro “Meus outros, 2007 e no livro “Luz”, 2024.
Dois contos publicados na REVISTA ACROBATA
na edição de 23 de julho de 2025.
Para leitura acessem o link abaixo:
literatura brasileira contemporânea, literatura feita por mulheres, Tere Tavares
O texto como imagem em Tere
Tavares
Por Luciano
Mendes
Logo no segundo parágrafo de sua
crônica "Eu te soube", do livro "Luz"(2024), Tere Tavares
nos diz: "nem tudo cabe dentro do silêncio". Lendo o livro dela, a
impressão que tive é que "nem tudo cabe dentro das palavras". Na
obra, a palavra é, aquém e além de "Tudo", um instrumento da imagem
(e da imaginação).
Nas sessenta pequenas crônicas
que compõem a obra, que também pode ser lida como uma "prosa
poética", Tere Tavares faz justiça à sua alma de artista plástica,
inventora de cores, de realidades várias, e de brincante com as texturas do
real. Estar diante dos seus textos é quase como estar contemplando um de seus
"outros" quadros; é quase como estar "diante de uma
imagem", para lembrar o feliz título do livro de Sandra Regina Ramalho e
Oliveira (Letras Contemporâneas, 2010).
Diante do leitor, desfilam,
desviam, desfiam, os vários elos que compõem, na cosmovisão quase animista da
autora, o conjunto do universo. Das plantas, flores, pedras emanam tanta luz
quanto dos astros celestes. Mas também os sentimos, as sensações, os juízos, os
conceitos, resplandecem. São, como ela mesma menciona, fragmentos de luz. Para
isso, muitas vezes organizadas em períodos curtos, as palavras mais evocam do
que expõem; mais provocam do que explicam; mais tecem do que enovelam.
Tudo isto não me parece ser por
acaso. Mas também não é cálculo calculado. As palavras no papel, na forma de
textos, mais se assemelham, reitero, à disposição cuidadosa, mas nunca precisa,
com que a artista lança as tintas na tela. Em camadas justapostas, mas que
transparecem, vão formando uma imagem. Lê-las é um exercício de
desconstrução/reconstrução permanente. Mas é, sobretudo, e antes de tudo, uma
experiência de fruição estética, é um passeio em meio a instantes.
Licenciado em Pedagogia, mestre
em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutor em Educação
(Área de História da Educação) pela universidade de São Paulo. É professor de
História da Educação na UFMG e docente do programa de Pós-graduação em Educação
da Faculdade de Educação da mesma universidade. É pesquisador bolsista da CNPq
vinculado ao Grupo de Estudo e Pesquisa em História da Educação.
Honrada com essa análise do livro Luz, (contos, edição da autora- 2024),
feita pela Escritora e Dra. Alexandra Vieira de Almeida (UERJ)
publico-a em sua íntegra.
Trazendo a inofrmação de que, essa resenha foi publicada, também,
pela Revista Caliban de Porutgal, PT.
Para acesso segue o link:
https://revistacaliban.net/a-luz-multifacetada-das-palavras-em-tere-tavares-c7740f3cd551
Por Alexandra Vieira de Almeida –
Escritora e doutora em Literatura Comparada (UERJ)
As palavras, no mais recente livro
de contos de Tere Tavares, Luz (Ed. do autor, 2024), conduzem o leitor
pelos vários matizes da luminescência, naquilo que elas podem revelar em pleno
sol de translúcidos espelhos pelo viés da objetividade, das reflexões
filosóficas e máximas que concretizam o poder do real e sua relação com a mente
humana, projetando, por sua vez, as sombras que tecem o ocultamento próprio do
fazer literário em seu reino de subjetividades em moto-contínuo. Entre a luz
mais clara da manhã à luz bruxuleante, que oscila, deixando, em seu rastro, ora
densas camadas ora faíscas tênues; a escritora de Cascavel, também artista visual,
costura uma malha textual plena de signos vários, não traduzindo uma unidade
temática em torno dessa mesma luz, mas dando ensejo à pluralidade de seus tons,
em que a solidão, o diálogo entre os saberes, a fragilidade, a morte, a
velhice, o amor, entre outros, quebram a monotonia das trivialidades mais
óbvias. Em sua obra, não há obviedades, como se lê na epígrafe de Victor Hugo:
“Aquilo que causa noite dentro de nós também pode deixar estrelas”.
Dois textos críticos belíssimos e
profundos teorizam sobre sua escrita, o prefácio de Amanda Kristensen e o
posfácio de Giovanni Francomacaro. Amanda afirma que Tere Tavares em sua obra “articula
conto, crônica e aforismo”. Realmente, suas intensas interrogações sobre a vida,
entremeadas como linhas ígneas no tecido das histórias, perfazem um processo
complexo e multifacetado em que a luz das palavras acessa o âmago da
existência. Ao citar uma frase de Flaubert, com relação ao romance Madame Bovary, Giovanni diz que “cada
história pode ser entendida como uma biografia em que o autor brinca de
esconde-esconde consigo mesmo”. Essa é a verdadeira máscara teatral que Tere
Tavares utiliza para a procura do leitor por sua mais explícita face.
No conto de abertura, “A alma não
pede, exige”, a autora faz um diálogo fecundo entre Ciência e Natureza, em que
ficcionaliza as reflexões de outrem em suas próprias divagações, não como um
espelho, mas como um alinhavo de novas linhas com sua densidade literária, novos
sentidos aos conhecimentos científicos através de suas fórmulas ficcionais. E a
escolha do nome Albert, citado no conto não é gratuita, associando-se à geometria
não euclidiana, que embasou estudos de Einstein. Percebam a tessitura argumentativa
neste conto: “As interrogações expandem a realidade”. Para depois, explodir em
movimento cuja poesia e o dom artístico servem não como simples complemento,
mas como componente essencial dessa realidade que se alarga: “Às vezes, não ver
o mundo no lugar de vê-lo é uma arte, é não habitar o óbvio, é fugir da
vulgaridade sem mergulhos ou voos fatais”. Discute, também, sobre temas atuais,
como a inteligência artificial, citando máximas instigantes como contraponto.
Há poesia e lirismo em suas frases,
aliando Ciência e Literariedade. Uma outra voz entretece a mente de Albert,
fazendo dele um cientista-poeta, assim como existiram filósofos-poetas, como os
pré-socráticos. No final, há uma longa explanação poético-filosófico-científica
com uma iluminação explosiva de pura beleza imagética e metafórica. Discute
sobre a relatividade de tudo, a provisoriedade, numa polissemia de vozes, em
que a ficcionista mesma expõe o narrador. Utilizando frases longas e de efeito,
por vezes, nos impacta com uma afirmação curta, mesclando vários registros
linguísticos e de estilo. O ritmo tem sonoridade plástica, construindo um
quadro completo diante de nós, quando rima vã com divã. Suas palavras se
organizam e se bifurcam numa composição rítmica que toca profundamente as avenidas
do real tornado linguagem.
Em “A chuva pousa as pálpebras”,
temos a forte presença da relação entre os elementos e suas combinações. A
natureza entra em contato com a sensibilidade da artista. Há frases potentes,
em que a natureza vai aderindo a ela – a linguagem –, estabelecendo uma ponte
entre a natura e a cultura: “A rosa sente a chuva. Vou-me percutida em átimos
de palavras soltas, palavras amorfas [amá-las é amar a vida]”. Há luminescência,
a luz de sua escrita ilumina a compreensão do texto, e uma fenda, uma rachadura
dão lugar à imaginação. Também encontramos, em suas palavras, a reflexão sobre
a arte de criar, num processo metalinguístico crescente como o silêncio e o
vazio, o antes da criação, de onde provêm a linguagem e o dom do ato de
inventar os símbolos mais plenos de luz e sombras, que se projetam nos papéis
brancos da literatura: “O dorso translúcido da mudez suspende-se em fragmentos sígnicos
e paradoxais”.
O eu, também, busca encontrar o
outro para dar sentido à sua vida, ele, o leitor que pode preencher esse vazio
textual feito de ardência, fulgurações e efervescência. Clarice Lispector era
mestra nos seus questionamentos sobre o eu, num diálogo constante consigo mesma,
o autoconhecimento, levando a hipóteses sobre a existência. Com seus monólogos
interiores e fluxos de consciência, Tere Tavares apresenta uma escrita única e
singular, mesmo que faça um tributo a uma tradição literária e de conhecimentos
diversos, em que a escrita é um diálogo intenso e constante com a vida: “Sendo
eu sem mim, ainda sou eu”, Ou ainda: “Para entender a minha escrita, há que
conhecer-me: a grandiosidade de uma obra se iguala à tragédia do seu autor”. Luz, de Tavares, é rico em metáforas e
imagens. Metáforas itinerantes que viajam pelos percursos da escrita,
metamorfoseando-se e diferenciando-se o tempo todo, utilizando-se de máscaras
imaginárias que deixam os vãos para a voz sair como um apelo para a essência do
ser e, ao mesmo tempo, como sua aparência, como o corpo ficcional do texto.
Tere Tavares se vale de metáforas de um lirismo perfeito e exuberante, como em:
“uma ovelha sem nome, órfã de lã”. É a própria reflexão sobre o papel da
escrita, que é, na verdade, um questionamento sobre o eu, o ser, acerca de temáticas
universais como o amor, esse pássaro “abstrato” que nos leva à transcendência,
não tendo uma “explicação”.
Suas interrogações se estendem para
o campo dos mitos, da cultura, da ciência, da psicanálise e, principalmente, da
literatura e das artes em geral, circulando por várias vias dançarinas do
pensar e estar no mundo. A relação ser/mundo é uma incógnita que reflete a própria
dimensão literária que oculta por entrelinhas movediças os arcanos do real. Sua
interrogação interior é uma viagem para dentro de si, é um itinerário pelos
mapas da linguagem, pelos fios visíveis e invisíveis da escrita e do eu: “Eu,
que nunca nasci completa. Eu, que sou um ser estranho e invisível a mim mesma”,
num constante refletir sobre o ser e o pensar sobre o próprio texto. Suas
frases são labirintos latentes que escondem o centro em sua potência
linguística e cognitiva.
A metáfora da luz tem um
significado mutante no seu livro, cujo título esconde os seus signos
diversificados, ímpares e oscilantes, símbolo do próprio ato criativo, que
mescla a luz e a escuridão, dando à luz, num parto aquoso e com forte dor, os
seus textos ficcionais, uma luz que ilumina e ofusca, que atrai e causa as mais
variadas sensações no outro, nos leitores ávidos por enigmas e deciframentos de
hieróglifos textuais que invadem sua escritura enigmática nos mistérios do ler
e do escrever.
No conto “Ensaio sobre o nada”, o
leitor está diante de um ensaio sobre a vivência da dor. Com afirmações e
máximas, Tere une, como é pleno em seu estilo, a linguagem objetiva e
subjetiva, em que o filosófico se mistura ao mais lírico-poético numa espiral
das horas, na qual o gosto saber-sabor da língua soletra o sensório das coisas
e dos objetos, cujo percebimento do eu vem à tona em expressões que remetem àquele
ruminar e mastigar as palavras com vagareza. O “rumor da língua” barthesiano se
infiltra em seus poros, trazendo o gosto do prazer da linguagem, na qual o
desprazer e o dissabor constituem a própria existência e resignação de ser
escritor. Como o equilibrar de um ser vacilante na corda bamba da vida. Nesse
conto, assim como em outros, há uma gradação entre o eu e as coisas, o eu e a
palavra, o eu e o tu, o eu e o mundo, culminando no clímax da linguagem
ficcional, cujo êxtase apreende o real do ser e do mundo: “Deveria eu que
caminho pela imaterialidade ver mais? Sim, ele disse, e me deu a mão”. E com a
perda da aura na modernidade, no seu viés benjaminiano, podemos ampliar aqui,
na obra de Tere, para a contemporaneidade, aquela perda do mistério que há em
tudo, num processo de obviedade que nossa sociedade busca: “A melhor forma de
decifrar um mistério é desmistificá-lo”.
O eu e o tu são amantes, também,
como num diálogo existencial e erótico ficcional. A polissemia dos signos e a semântica da luz
incendeiam corpos, sentimentos e pensamentos dos amantes, que se fragmentam e
multiplicam nos seus espectros, trazendo o reflexo do humano para o literário
como num jogo de espelhos, onde se miram e se buscam nos significados duplos do
dia e da noite, em seu caminhar de oposições e segredos.
No final de cada conto, como este
aqui, há uma síntese, o que confere um toque meteórico e monumental ao conto, como
a maioria, curto: “A coragem de levantar os olhos para o horizonte e pensar
está para poucos. O afeto é sempre superior às paixões”.
“O pássaro” faz um panorama sobre a
fragilidade e como o pouso, as forças telúricas do mundo, pode adquirir o voo,
mesmo que imaginário e celeste para os sonhos do escritor, esse pássaro que tem
o corte das asas como dom de criar novas com o sangue das palavras. Numa
revoada, Tere mede o voo e faz o pouso para alcançar as linhas fiáveis do
texto, voar por entre as palavras é alcançar o cerne de sua escrita complexa e
inerentemente poética. A pausa é o pouso do pássaro para descansar e refletir
sobre suas asas plenas de ares linguísticos. É preciso planar e pousar para se
deglutir e mascar as palavras, refletindo sobre o itinerário, a viagem aérea. O
voo e o pouso da leitura com os olhos da acuidade ampla levam a interpretações
mágicas que encantam a visão dos leitores. Esse pássaro aqui, no seu conto,
terá um defeito de sua própria essência de ave, a falta das asas que lhe caberiam.
O mundo animal é revelado com sua mãe-ave, sendo esse universo a própria
metonímia do humano. A pequena grande história de um frágil pássaro e sua família,
a imensa família que é a humanidade.
O pássaro passa por intempéries e
sofrimentos, o fora e o externo lhe causam intensa dor: “friagens inclementes”,
“terras dobradas” e “ventos álgidos”. Seu vocabulário, por vezes, rico e
rebuscado e, por outro lado, de uma claridade profunda, remete às várias
facetas da luz, que ora clarifica, ora projeta a sombra no seu ocultamento
implícito. A potência do frágil, neste pássaro incomum, é “compensado pelo seu
inquebrantável espírito”. O paralelismo dos reinos animal e humano, com sua
força e fraqueza, aparece, por exemplo, quando se fala que o “ser” (animal –
palavra aqui intercambiável com o humano), necessita de “calor”, “alimento” e
“luz”, pois todos precisam de proteção e cuidado. O pássaro “não crescera com a
suficiente nutrição”, o que, no futuro, trará sérias consequências. E ele
atinge a maturidade. Assim este pássaro desafia a lógica, alcançando aquele
espírito vago e imaginativo da poesia. De conteúdo existencial, seu conto é uma
fábula contemporânea sobre a fragilidade do ser e seu estar no mundo.
As asas como sinônimo de vida, o
voo e sua falta como finitude e angústia, revelam o amargo sentir deste pássaro
que não procura a solidão como subterfúgio, formando uma família a quem dá amor
e proteção, diferentemente da sua mãe: “Restou-lhe a cicatriz circunscrita no
dorso, o desequilíbrio do corpo e a humilhante condição psíquica”. E continua:
“A supressão da parte mais bela e importante de si mesmo o impediu de gozar a iridescência
plena do céu”. Deixando de ser celeste para ser telúrico, fincando-se na terra
com sua pássara e filhos, produz os voos mais poéticos através do seu dom de
imaginar. Deixa sua essência principal para encontrar uma experiência
coadjuvante que não corta suas asas imaginárias e metafísicas, o voo do sonho e
da transcendência, pois, apesar de sua força atávica, sonha planos de voos
cósmicos e suicidas. A latência do voo é a angústia da alma, que não se
transforma num monstro horrendo e disforme, mas num ser compassivo e desejoso
do melhor para a família.
No conto “Semântica ou a casa onde
melhor me sinto”, temos referências heideggerianas
já no título, pois o filósofo escreveu que “a linguagem é a morada do ser”. Tere
Tavares parte do paradoxo do sentir como a mescla entre o riso e o choro no
primeiro parágrafo do seu texto para tecer comentários sobre sua própria
escrita, num círculo que produz sua chama cheia de lampejos brilhantes, entre a
Teoria e a própria ação do narrar: “Escrevo com a languidez das mãos molhadas no
luar dos retornos menos felizes, ao salmodiar da noite que se prenuncia afoita
e tímida”. Dessa forma, a teoria da literatura sai dos compêndios e flana sobre
suas palavras no escrever mesmo e todas as teorizações e complexidades que o
literário requer.
Também encontramos o misticismo,
com a presença de Deus, em que a subjetividade entra como seu interlocutor,
indo do sagrado aos ritmos da natureza, essa produzindo o renascimento do ser
por seus elementos, nos quais a natureza se camufla em linguagem. E a unidade
se constrói pela pluralidade: “Sinto-me habitada por filhos de papel e
tinta...” e que “sou os livros, as letras, os leitores, os injustiçados, a resistência”.
Aqui, parte do mais universal e plural para algo mais específico e particular
que é nossa sociedade com seus reveses. Nessa ambiguidade entre a Literatura e
o Social, Tere cria uma simbiose poderosa: “Há arte somente quando há humanidade”.
O real e o ficcional se unem para criarem um centauro duplo, metade arte animal
e metade corpo humano, pois a literatura é linguagem inaugural, que tem a
origem no ser humano, adentrando o reino das palavras no seu terreno ainda
virgem, pronto a ser explorado por leitores bravios.
Em “Um rosto à submissão da
linguagem”, as palavras multifacetadas trazem a vida, possibilitam o encontro
com o outro e com o mundo: “Precisa ultrapassar a si mesmo como se um corpo
outro o submetesse à estranheza alheia para sentir-se no cais da linguagem e,
nela, reconhecer-se estonteantemente febril e vivaz”. Há algo de primordial e
originário que identifica o livro e o ser num mesmo deslumbramento, um
relicário. O amor à vida que nos enaltece. Ela trabalha também com reflexões
sobre a velhice, o nascer, o amadurecer e o morrer e com uma passagem que
remete como um eco sonoro e rítmico de um poema de Cecília Meireles. Tere
escreve: “Não posso dizer que estou triste nem que estou feliz”. O minimalismo
individual como potência do eu maior, do ser humano em toda sua grandiosidade,
leva o corpo definhando, com a aproximação da grande viagem, a uma alma intacta.
Após sessenta contos muito bem
elaborados e profundos como o corte de uma espada de samurai, o livro se
encerra com o conto número sessenta e um, “Fragmentos de luz”, na verdade, uma
colcha produzida por breves luzes intensas e tensas, uma espécie de conjunto de
microcontos e minicontos, que são minutos de reflexão, pérolas mergulhadas no
mar da poesia, em ondas criadas pelos leitores com a avidez de atingir as
areias da vida em seus múltiplos temas: sabedoria, desigualdade, poluição,
solidão, perdão, o ser, autoconhecimento, sagrado, arte e erotismo. Como nos
fragmentos de um discurso amoroso de Roland Barthes, Tere tece reflexões em
cada parágrafo sobre amor, literatura e
uma variedade de outros temas em torno do ser e da realidade que contempla pela
linguagem suas inquietudes em todos os vieses: políticos, sociais, existenciais,
religiosos, metalinguísticos, filosóficos e artísticos, como a ambivalência da
escrita, a usura no garimpo, a vida e a morte, o feminicídio, a natureza, o
ser, as mudanças climáticas, as relações entre as pessoas, o mistério salvífico
da literatura, o engajamento do escritor e assim por diante.
Nas suas micronarrativas, que,
através de fragmentos, sintetizam, em cada uma delas, totalidades (como no
Romantismo alemão), são tais como cápsulas plenas de engenho e beleza, cujo
intuito é pensar sobre o ser e a realidade que o envolve. Toda uma investigação
se intui dos contos de Tere Tavares, que também faz considerações sobre como o
mercado cataloga o não livro como livro, como literatura, tecendo uma crítica
ácida contra a coisificação do literário. Como escritora que é, seu papel consiste
em praticar o ato de pensar sobre seu artefato linguístico, a face
multifacetada das palavras grávidas de luz, no qual a escrita nasce para um
mundo melhor, apesar da máscara terrível do homem. É necessário resgatar nossa
unidade perdida pela divisão da realidade que nos aprisiona numa rede mecânica.
Em Luz, de Tere Tavares, a arte
literária está posta como um verdadeiro tapete que se estende para os leitores.
A eles, cabe tecer-lhe as asas rumo à ruptura, ainda que transitória, com os
grilhões da mordaça social em que nos movemos: “Não à ditadura entrópica da
Literatura”, pois “a escrita é uma tapeçaria sobre a qual depositamos nossos
pensamentos”.
Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ) -
Outubro de 2024.
Conto do livro Destinos desdobrados, 2021, Tere Tavares, Editora Penalux
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| Arte digital; "Árvore"- 2019 Tere Tavares |
Das
coisas que se tornam pelas mãos juntas
Thuarta, fixa os olhos para
bem longe da varanda. Lembra das minúcias marítimas e das fronteiras
insubmissas. Premedita e calcula. As estrelícias revisitam a ave-do-paraíso:
[imitando-a, visando-a]. Clamam pelo não perecimento e pela fuga das
normas. Ouve-as e perambula pelas suas
formas. Por vezes, a perspectiva é embaraçosa, mas evidente. Ir-se, entretanto,
é imprescindível. Sapevo chi sei. Lê como se um floco de frescor pousasse sobre
as úmidas concavidades das avencas – não florescem, mas, para Thuarta, é fácil ver-lhes
as folhas, as hastes vibrantes, os pecíolos frios e negros como cílios de
além-mar, adiante da calmaria sonhada ao pé de alguém que recolhe cada uma de
suas películas; o vento as evita para não as ferir e elas se deixam caber num
vaso à parede feito sentinelas, silhuetas difusas às suas costas.
Estrelas vermelhas em
meio ao verde e tons de terra dizem sóis às metáforas que, mesmo mortificadas,
sobrevivem ao tempo. Ela diz a si mesma:
“Avalio o voo que me devo. Ignoro que aprendo muito sobre os pássaros que nunca
se escusam aos saltos no escuro. Tenho a coragem e a vontade de viver como
primazia. Não me defino, tampouco definho. Defendo-me. Sou humana e falível. É
tão frio morrer de frio. Penso, novamente, no mar. Se os pés deslizarem por
entre as ondas, não haverá nenhuma filosofia que os detenha. Não sei se
acontecerá nem o que penso: se sou outra invenção do que sou, não sei; sou para
mim mesma oculta, escuto essa lição iniciática para além desse ar profano. Novo
ano, será? ”.
Ela retorna à outra
leitura como se antevista: “Uma rosa es todas las rosas. Tus dones son una
extensión de tu alma. Cultivas la sabeduría solo cuando tienes dudas”. Apenas quando
se percorre o mistério da própria obra ela será portadora de alguma perfeição.
A arte permeia a subjetividade como um cão fiel ao seu dono e faz Thuarta sentir-se
como se à própria paisagem. Caminha-se longuíssimas distâncias mesmo quando não
se vive muito. O que é alijado do bem subverte a alma. À espreita, está o que se
eleva ao cansaço, à corda de aço invisível; bravios espaços de parições
incertas. Algumas pérolas nascem do sofrimento, mas também da felicidade. Nem
tudo sucumbe ou fenece no fogo, na fumaça que anoitece a chuva. Porque caminhar
sobre as pedras, confrange-te a viver os muitos depois, desde os breves
estampidos à escuta solitária, do caderno inumerável à necessidade de reintegrares-te
a cada momento. De quando te inscreves em algo inquisitivo. Do intuir e do
ficar perplexo. O nexo que te adivinha. Então, passas a medir-te pelas águas e
transformar todas as dores e todas as faltas num dilúvio.
Fortuna crítica:
Uma tristeza enorme o que se passa na Amazônia , o texto tradu-la bem.
Um texto de qualidade composto em atmosfera, diria, de quase sentido elegíaco. O poeta (no sentido de vate, daquele, vê mais longe), tem os olhos em geral atentos e vigilantes voltados para o que acontece no mundo, num continente, num país específico. Ele solta as asas da imaginação a fim de não só denunciar os males dos homens, mas também de transformar a realidade tenebrosa, desumana, indiferente, em linguagem literária. Poesia também é combate. Nem é preciso citar nomes, lugares, tema situação trágica, nome dos bois para sabermos do que se trata num poema assim elaborado, mal saído do forno, contra as absurdidades dos homens dos homens. O desenho, por si só, reforça a realidade tenebrosa a que podemos chegar em tempos de obscurantismo múltiplo.
Apocalipse que se constrói a cada dia. O homem não aprende as lições do passado e incendeia o que não valoriza. Esquece até da sua própria casa. O que se vê hoje? Matança em todos os sentidos.
Lembrei das queimadas
Poeticamente lindo! Triste, sentido na pele. Maravilhoso, você existir.
Adquira seu exemplar com a autora pelo facebook: https://www.facebook.com/tere.tavares.1
Publicar um livro é sempre um desafio, por mais que tenhamos publicado outros livros anteriormente. Cada livro cria a sua correnteza estética e ética, os seus caminhos e estranhamentos. Há acertos e há falhas, mas nunca falta a ardente razão criativa que nos faz escrever. Tudo é novo e tudo é diferente. Estamos celebrando a nossa ousadia e trazendo ao mundo o livro LUZ. Que se torne leitura.
Tere Tavares
Prefácio de Amanada Kristensen |
PREFÁCIO LUZ
Esta página é redutora e
por isso contrasta com toda a prosa vaga-lume que espera os olhos de um leitor
atento e sensível à sua luz.
Como leitora privilegiada da obra Luz
(2024), de Tere Tavares, sou capaz de afirmar que o ato de me embrenhar em suas
escre(vi)vências, ainda no prelo, permitiu-me, ao longo de diversas
atualizações quanto aos sentidos dados e (de)formados pela autora, (re)edificar
um alargamento subjetivo de meus horizontes de expectativas. Isso implica afirmar que a recepção da
obra de Tavares levou-me, pela constante desconstrução do familiar – proposta,
especialmente por meio do potencial semântico de suas combinações lexicais
posteriormente recuperadas – a um enriquecimento não só metalinguístico quanto
ao que considero, por exemplo, o fazer literário, mas especialmente, ao
aprofundamento de uma percepção dialética acerca da corporificação sensível-estética
de conceitos abstratos relativos à
natureza humana, como a inadequação x harmonia; superficialidade x profundidade
etc., dando a tais duplos abstratos carne e osso por meio do complexo existir
de personagens densos. Como prefacerista, e já na esfera do que
conhecemos como crítica literária, tenho de admitir que elaborar meios
didáticos para descrever o efeito estético da prosa poética de Tavares, fez-se
matéria sisífica: quando pensava chegar ao topo das tentativas de parafrasear a
experiência da substância literária propositada pela autora em seus dizeres,
percebia-me apenas limitada à superfície estrutural de sua obra ou, até mesmo,
à estagnação do susto ante um fazer literário-artístico absolutamente original;
teriam assim penado Wolfgang Iser e Benjamin Moser para, respectivamente,
adentrar a literatura de Dickens e Clarice Lispector? Embora
ciente de minhas deficiências perante o inefável prazer estético a que fui
submetida, considerarei meios passíveis de descrição proposicional quanto à
recepção da obra da autora que articula conto, crônica e aforismo[1] para abordar especialmente
a metalinguagem e a dissecação de consciências que, nitidamente, conflitam entre
id, ego e superego, expressando a partir de seus comportamentos discussões
filosóficas, sociais e afetivas acerca das emoções humanas. Para ilustrar faces
desse contexto artístico de produção, recorrerei, especialmente à crônica metalinguística
e filosófica Desescrever e ao conto O pássaro, marcados respectivamente
por monólogos e fluxos de consciência complexos e representações alegóricas das
sensações e comportamentos humanos. Em Desescrever, a temática da metalinguagem,
ou seja, da linguagem
literária que
se debruça sobre si mesma, propõe a palavra literária enquanto palavra
desnuda que preenche artisticamente o ser-poroso: o homem moderno que, embora
cheio – de si e de saberes – existe amplamente fragmentado. Aproximo a proposta
metalinguística de Tere Tavares do dizer literário enquanto dizer nu, pois como
insinua o próprio título, Luz lança um Fiat lux aos olhos gastos
de leitores habituados à (des)informação em excesso advinda por intermédio de
uma palavra gasta cuja couraça ideológica – repleta de pré-conceitos – é
preciso despir. O poeta amazônida Thiago
de Mello anteciparia esta percepção da linguagem em Silêncio e Palavra,
direcionando-nos que A couraça das palavras/ protege o nosso silêncio/ e
esconde aquilo que somos. Tere Tavares, por sua vez, vem nos mostrar que a
linguagem literária deve estar além da couraça: é preciso (res)semantizar as
conceptualizações do homem, ou seja, seu processo de compreensão de si e o
mundo, desmistificando-as. Nas palavras da autora quanto à linguagem literária:
“O
dizer é intocável por conter a impassividade do verbete ágrafo, por
refutar as obviedades. Nunca toques as palavras miseráveis,
deixa-as morrer em pré-palavras entre as intolerâncias das coisas gastas”. Diversas
combinações lexicais propostas por Tavares como verbete ágrafo geram um
efeito de estranhamento no leitor pensado, o que Umberto Eco chama de
Leitor-Modelo. Este, num grau complexo de informações enciclopédicas que não
devemos aqui desconsiderar, é direcionado a um caminho de apreensão dos
sentidos pelo desmembramento de contínuas construções semanticamente paradoxais
e inicialmente irreconciliáveis; afinal, um verbete propõe conceituar
verbalmente, ou seja, pela grafia, pela escrita, um conceito. Ao propor que a
linguagem literária é impassiva e comporta-se tal qual um verbete ágrafo, Tere
Tavares confirma um dos diversos aspectos cognitivos gerados pela literatura
moderna, que é a movimentação e deformação semântica: a expansão da fronteira
entre a experiência humana e a articulação linguística, reforçando aspectos
icônicos da linguagem, fazendo-a próxima das sinestesias. Para o teórico da
literatura Gellhaus (2012, p. 7) “[...] a literatura trabalha no limite do não-proposicional e cria novas formas
de articulação [construindo] modelos para a percepção de realidade e para a
reconstrução de experiência”. Considera-se que o âmbito do não proposicional
abarca “[...] impressões sensoriais imediatas e pré-linguísticas, como
experiências de sons, cores, odores e impressões táteis, mas também
experiências altamente complexas, marcadas emocionalmente, como traumas e
recordações” (Gellhaus, 2012, p.7). A temática metalinguística de Tavares
antecipa, pois, o próprio percurso existencial de suas personagens que,
geralmente, em sua nítida ingenuidade, antes sentem a mágica epifânica das
coisas, que podem descrevê-las. Agem como se percebessem, por exemplo, um
arco-íris como o olho nu do mundo e embora quase não o possam descrever como um
fenômeno óptico
e meteorológico, são capazes de experenciar sua beleza; assim, as
personagens de Tavares direcionam o leitor antes à sensação dada pela linguagem
literária que à proposição lexicográfica desta. No conto O pássaro, por exemplo, o leitor é
apresentado a uma ave que já no nascimento passa por diversas dificuldades para
ser-no-mundo e que, posteriormente à maturidade, perde sua característica
genuína: a capacidade de voar. Aproveitando-se do símbolo do pássaro para
propor uma alegoria do comportamento do Homem, Tavares aborda desde o abandono
afetivo nos primórdios da vida até a sensação de uma existência absolutamente
podada em sua própria natureza, uma vez que o pássaro perde a capacidade de
voar e lhe resta uma “cicatriz circunscrita no dorso, o desequilíbrio do corpo
e a humilhante condição psíquica”. Embora inundado pela incompletude, o pássaro
prossegue, fincando sua pulsão de vida no ensinamento dos filhos rumo ao ápice
de suas existências: “[...] o inevitável e definitivo voo que é o sonho e o
prazer inerente de todas as aves sãs”, até que possa, finalmente, “descansar da
vida”: “ele se pôs sob uma árvore ressequida, cerrou os olhos, cabeça pendida
sobre o peito, imaginando o que fora anterior à tragédia de não mais ser, até
que o céu o recolhesse”. O leitor é levado a rememorar suas
incompletudes e, em seu imaginário, enquanto persegue o caminhar existencial do
pássaro, acaba por associar sua condição à sua própria catarse – a um efeito
transformador – que o direciona ao exercício reflexivo-hipotético acerca do que
vem a se configurar uma natureza humana que não pode exercer seu fim humano: um
homem que não encontrou o amor? Uma mulher infértil cujo sonho era ser mãe? Uma
filha que, amando a mãe, jamais pôde receber esse amor de forma recíproca? O sofrimento patológico de um acumulador de
riquezas incapaz de perceber a fome do outro? Muitas seriam as possibilidades
proposicionais, mas nenhuma delas é mais semanticamente profícua, no sentido de
ressemantizar o que conhecemos por inadequação, que a recepção da sensação
dolorosa de (re)conhecer sensivelmente, num pássaro sem asas, sua total perda
identitária. Ainda quanto a esse conto, em seu desfecho, a narradora propõe uma
reflexão filosófica acerca da incompletude dos sujeitos, que parece (re)problematizar
a própria natureza do ser humano – ser necessariamente incompleto que continua
sendo, mesmo sem quase poder sê-lo: “Ser-te eu quando nem mais. Remar mesmo sem
asas, porque se foram. Remar, em ti, as fraturas do sem mar”. Comportando-se tal qual a personagem do conto Saga, Tavares é uma “[...] grande mulher que mesmo na estiagem chove”. Resta, então, ao leitor moderno acomodado às prosas gastas fazer-se capaz de, como uma criança que engatinha o mundo, esquecer-se um pouco do conforto adulto da água morna do chuveiro elétrico ou da couraça das palavras e aventurar-se a uma chuva de Luz jamais passível de repetição, mesmo num calendário de 365 oportunidades, ou num repertório tão numeroso tal qual o é a Literatura Brasileira Contemporânea. Amanda
Kristensen Escritora
das obras Pelas Frestas, Entre-Terras e Os segredos de Vó
Trudes. Doutora
em Letras, pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Mas
principalmente amiga, admiradora e leitora de Tere Tavares.
[1] O aforismo é um
gênero na fronteira entre o literário e filosófico. Propõe definições breves
pautadas pela subjetividade. A forma aforística em Tere Tavares perpassa por um
dizer poético e é definida pela autora como “fragmentos de luz”. Dentre os
diversos ‘fragmentos’ propostos pela escritora ilustra-se sua definição quanto
ao valor da arte estar menos na questão autoral e mais na matéria artística: “O
valor da Arte está no que, a ela, se dispensou de trabalho até autografá-la”.
Posfácio de Giovanni Francomacaro, Itália Posfácio LUZ "Madame Bovary sono
io" dichiara Flaubert, volendo così affermare che in ogni personaggio
l'autore mette un po' di sé stesso; pertanto ogni racconto potrebbe essere
inteso come una biografia in cui l'autore gioca a nascondino con sé stesso. Tere Tavares non mente,
non si nasconde, possiede una scrittura che non posso definire in altro modo
che limpida; nelle sue storie non appare il percorso di un personaggio e
nemmeno la cronaca di una vita, ma la storia di una trasformazione; c'è una
ricerca del sé più intimo e questa ricerca avviene proprio come i suoi disegni:
con tratti privi d'incertezza che fluttuano decisi e sicuri come il volo di un
colibrì. Il senso delle storie di
Tere è ricercare la propria unicità che si può manifestare solo nel proprio io;
ma non l'io egoistico, che sconfina nell'ego, ma l'Io importante, perché
portante di una intera esistenza che non può terminare con la parola fine ma si
rinnova ogni volta con la parola "conoscere", una parola che nasconde
fra le pieghe delle lettere una parola ancora più misteriosa: nascere, e
rinascere. Tere Tavares è inquieta
come la sua terra, rivolta emozioni come fossero sassi conficcati nel cuore,
non si nasconde ma combatte contro la crudezza del mondo e della vita, e si
pone di fronte al male con la sua arte, che innalza come uno stendardo, oppure
un'arma che invece di uccidere genera vita. Giovanni Francomacaro,
Itália.
Posfácio LUZ – Tradução por
Tere Tavares "Madame Bovary sou
eu" declara Flaubert, querendo, assim, afirmar que, em cada personagem, o
autor põe um pouco de si; portanto, cada história pode ser entendida como uma
biografia em que o autor brinca de esconde-esconde consigo mesmo. Tere Tavares não mente,
não esconde, tem uma escrita que não consigo definir senão clara; em suas
histórias não aparece a trajetória de um personagem ou mesmo a crônica de uma
vida, mas a história de uma transformação; há uma busca pelo eu mais íntimo e essa
busca se dá exatamente como em seus desenhos: com pinceladas livres de
incertezas que flutuam decidida e confiantemente como o voo de um colibri. O significado das
histórias de Tere é buscar a própria singularidade que só pode se manifestar no
próprio eu; mas não o eu egoístico que faz limite com o ego, mas o eu
importante porque é o portador de toda uma existência que não pode terminar com
a palavra fim, mas se renova, a cada vez, com a palavra "conhecer",
palavra que esconde, entre as dobras das letras, uma palavra ainda mais
misteriosa: nascer e renascer. Tere Traves é inquieta
como a sua terra, revira as emoções como se fossem pedras confinadas no seu
coração, não se esconde, mas luta contra a crueza do mundo e da vida, e
enfrenta o mal com a sua arte, que ergue como um estandarte, ou uma arma que,
ao invés de matar, gera vida. Giovanni Francomacaro,
Itália.
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Destaco em especial neste conto a força do investigativo vindo dos longos poemas que são os próprios contos de Tere Tavares. Há a inscrição do rigor poético, mas com a mesma feliz criação, o caminho novo fica mais alargado com a trama e seus roteiros de ações. O que os livros empoeirados arrancariam de fato da personagem com os olhos esquecidos na igreja? As mãos nos pés arrancados de Santo Antônio teriam que encontro naquele ambiente vivificado por seu abandono? Desconfianças são motivadas pela narrativa sólida em dualidades, em contrastes insólitos supervalorizando a ambientação possível nas descobertas de silêncios nos gestos. Caminhemos por entre os tantos sacerdócios da boa literatura que o roteiro é longo, incerto, cheio de miragens, de bons e operatórios enganos. Geovane Fernades Monteiro.