sábado, 10 de outubro de 2009

Sobre uma concepção




Recolhi um coração do chão e o cobri com sentimentos azuis. O dia não oferecia nada além do dia, e a cor da terra era um vilarejo macio.
De um fio vindo de um barco e suas metades, alguém foi buscar um peixe – o animal de sangue-frio – e voltara sem ele. Degraus quase invisíveis descansavam na areia. Brinquei com a metade direita, enquanto depositava seixos e conchas no que não seria, em absoluto, uma natureza morta.
O sol intimidou-se e pousou em silêncio na outra metade. O amarelo que aquece e ilumina. Quanto é possível extrair dos movimentos que pulsam incessantemente e jamais adormecem! Quatro espátulas em vigília. Quanto é necessária a intermitência das sombras e das cores?
O outro lado irradiava uma brancura feliz. Não foi possível determinar quem, nem onde, nem quando. A paisagem servia infinitos olhares. A vida era vermelha e disse aos azuis que jamais negaria qualquer possibilidade de novos matizes. Ainda que fossem confusos e indecisos. O mundo não declinaria de colorir-se, afinal, nada havia se partido.
    • Tela - O Barqueiro - TT

14 comentários:

Ana Guimarães disse...

Suas letras e matizes colorem o nosso mundo, por mais negro que ele esteja! Parabéns!

Luiz Ramos disse...

Quando se colore com a razão e com o sentimento nada se parte, tudo é uno, amarelo, azul, vermelho.
E vivo, ainda que confusos e indecisos.
Passei para desfrutar de suas cores e sentimentos.
Luiz Ramos

Carlos Ricardo Soares disse...

Tere

acabo de ler o teu texto belíssimo de cambiantes apaziguadores como um sol temperado que desvenda horizontes da alma...
Esta frase é um achado:«A paisagem servia infinitos olhares.»
Reparo sempre nos teus quadros maravilhosos, de requintes artísticos invulgares, e noto em tudo, na escrita e na pintura, um desenvolvimento e uma profícua maturidade.
Parabéns pelo teu trabalho!
Obrigado pela partilha!
Abraço

Ricardo Calmon disse...

Ahh!Madrinha Minha,Terê Caríssima,em semana toda,de intensa chuva,mesmo ao cair da noite,fez-se luz em cardíaco e mente minha,sorvendo dilícias suas,em versos formas!

Amamos Voce Poeta !

Viva Vida!

Anônimo disse...

.

--- Minha doce e querida confreira, Tere: visitando o seu blog, fiz um belo passeio pelo conjunto da sua obra aqui exposta. Tudo muito lindo, como a sua alma e o seu jeito maravilhoso de ser.
Quanto ao seu último conto, Sobre uma concepção, tivemos a honra de publicá-lo na Revista da ACL número dois que já está em circulação.

Você é tazão de orgulho para seus amigos e para a Academia, a qual você veio trazer especial brilho.

Fraterno abraço!

ANTONIO DE JESUS
Presidente da ACL

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

... ...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazon
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


TE SIGO TU BLOG:
M-EUS OUTROS




CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesia ...


AFECTUOSAMENTE
TERE




jose
ramon...

Djabal disse...

Nós dividimos tudo, pedaços simétricos ou não. Sempre pedações. Você sempre comparece inteira, como a natureza da sua natureza. Talvez como disse Manoel de Barros, repetindo-se a palavra ela se vista com a verdade que nós, pobre de nós, não vemos como você a vê. Lindo, meus parabéns. Beijos.

Rosemari disse...

TEre

As cores de seu pincel não deixam margem para se pensar nela preto e branco.
Um coração azul sempre alcançara outras matizes.

beijos

antes blog do que nunca! disse...

Querida Tere,

ler este texto é muito mais que enriquecer a nossa cultura literária. É abraçar um universo que transcende o horizonte das palavras e adentra a sensibilidade (que bem sabes, é-me absolutamente preciosa)!

Sinto um imenso orgulho em saber que somos amigas. De verdade.

1 Bj*
Luísa

Tere Tavares disse...

Rose, Jose Ramon, Djabal, Luiz, Antonio de Jesus, Ana, Ricardo, Carlos, Luisa...
Agradeço imensamente cada palavra e ilustre presença.
Beijos

neo-orkuteiro disse...

M-eus Outros é parada obrigatória em minhas andanças virtuais, Terê.
Sua Concepção é tocante.
A ilustração, linda.
Toda a minha apreciação.
Beijos.

Eduardo Lara Resende disse...

Obra de arte-poema. Poema-obra de arte. Poema-obra de arte-sonho.
Estou na trilha, seguindo.
Abraço e obrigado pela visita.

Salete Cardozo Cochinsky disse...

Tere,
Que imagens, cenário, movimento, sobra, luz e cores fazem-se presente em teu texto.
Um cosmo feito de concreto e abstrato, vivo e infinito.
PARABÉNS, Amei

PS. Passei esse, para mim, interminável período sem entrar em BLOG.
BEIJOS,
SALETE

Ricardo Calmon disse...

Passadinha aqui para deixar todos girassois de campos meus!

te abraço e reverencio siempre,madrinha minha!

bzu mãos suas!

Viva Vida