Arte:Tere Tavares - Pescador ao pôr do sol.
Clemente
O
sol sumia por entre as pedras entristecidas. As ondas, como enormes maços de
nostalgia, esparramavam-se incansavelmente sobre a imensidão difusa da praia.
Era
uma vez um desvairado pairando sobre a vastidão. Atravessou a crueza da sombra e
foi ter com os rochedos. Era possível que estivesse num lugar onde provasse
toda a sorte de sensações. Seu objetivo era o lado oposto. Lá encontrou ondas
maiores e ameaçadoras. Alguém vendia ilusões a cinco reais.
Resolveu
retornar ao lugar de onde viera. Sentia-se vigiado. Sequer se lembrava dos
seus. No brilho dos finos grãos de areia, como redigidos por uma estrela de
meio-dia, lia-se o motivo de cada ser que ali houvesse aportado. Seriam
legíveis aos outros os passos que dava na mesma proporção que lhe eram nítidos
os rastros dos outros?
O
desvairado, contorcido pelas bifurcações do pensamento, almejava estar diante
de outro cenário. Mal podia conter o
torpor da sua terrível ansiedade. “Deves sentir cada direção escolhida, seja
como for”. Aplaudiu ao sinal como quem se agarra ao intransponível. “Terás de
sentir também esses ares recém-plantados, e os infinitos. Queres? Quem sabe as
areias movediças? Não recomendo que te satisfaças tão rapidamente”.
Atendeu
sorrindo com a febril consciência de um ponto sem ponto. Provara a todos e a si
mesmo – a mente liberta o fazia sentir-se lucidamente fecundo, eufórico. O
primeiro nascimento, o segundo viver, o terceiro término. Não lutou contra a
canção espiralada no peito. Brincou com os seixos. Guardou alguns búzios. Não
se tornaria opaco outra vez. Era como se repartisse a própria vida sobre um
tabuleiro interminável, o delírio cinza e sublime – sem perceber a loucura que
o acompanharia até o céu.
Tere Tavares, livro Entre as águas, Contos, 2011.
Francisco Da Cunha
Texto belíssimo
tanto nas descrições quanto na narração.Antes de tudo, é um texto lírico entre
contrastes e alegiras UM texto em que os eleitos inanimados se ani.izam ao
mês.o tempo,realizando uma simbiose de beleza de pensa.entos saudáveis a
alusões não bem aceitas pela voz narrativa.
A narrativa
é de terceira pessoa, mas as frases da enunciação aspeadas parecem ser como se
fossem orientações conduzidas pelo narrador de terceira pessoa. A linguagem da
autora, através do discurso tanto do narrado quanto do que ouve um personagem
interlocutor, por vezes, dá a impressão de que que são uma mesma personagem
transitando do discurso do enunciado para o discurso da enunciação. Essa é uma
estratégia da autora para lidar com a complexidade da história que é transmitida
a nós, leitores. O mais intrigante ou instigando é que a disjunção do narrador
de terceira pessoa com o discurso do narrador da enunciação, se causam
embaraços de vozes narrativas, ela, a disjunção é compensada pelo todo do texto
em si. Que dirigimos nosso olhar para as ideias e pensamentos do texto. É nesse
ponto que o tema de alguém determinado a atravessar para um outro lado pelo que
o texto diz ou oculta torna a história de alguém muito palatável e atraída a amar
a continuidade na leitura dessa narrativa, como disse, permeada pelo lirismo,
pela poeticidade textual. No discurso narrativo, no chamado "récit”, o
ponto mais elevado da comunicação literária se faz graças ao poder e magia
encantaria da linguagem que desliza suavemente, por assim dizer, na realidade
entendida no plano individual pelo recurso do lirismo envolvente e pelas ideias
transmitidas através de dois espaços literários: o da ida e o do regresso.
Penso que ler uma narrativa de Tere Tavares é adentrar no reino da poesia de
mãos dadas com a prosa. Ler essa autora é predispor-se a enfrentar a magia, a
fábula, a indeterminação, o domínio do oráculo, ou, por outras palavras, a
entidade pelo espelho de Carroll. Enfim, é penetrar na desautomizaçâo exigida
como um vetor sofisticado do sublime poético.
By Francisco da Cunha e Silva Filho, RJ
Geovane
Fernandes Monteiro
Encantador seu texto, Tere! Consegue com maestria conduzir o leitor a
soltar as mãos e abrir os olhos diante da linha malabarista da boa e confiável
literatura. Havemos de cair? Eis a responsabilidade que o texto de Tere
Tavares nos possibilita.
Giovanni
Francomacaro - Itália.
Dipinto stupendo! E Stupendo anche il brano. Non so spiegarti perché ma
nel Folle , pellegrino, ho visto l'anima femminile. La follia appartiene a chi
non sa dove si trova e dove andare. Il tuo folle ha in se la sua meta:
l'inferno e il paradiso, il cielo e la terra, e l'abbraccio del mare che tutto
sublima. Clemente è una Donna.
Tradução by Tere Tavares: Pintura incrível! Estupenda também a canção. Não consigo
explicar porquê, mas na Loucura, peregrinação, vi a alma feminina. A loucura
pertence àqueles que não sabem onde estão e para onde ir. Sua loucura tem seu
objetivo: inferno e céu, céu e terra, e o abraço do mar que tudo sublima.
Clemente é uma mulher.
In facebbok em 12 03 24
lhttps://www.facebook.com/tere.tavares.1/posts/pfbid08LhJDK6Fc6Z66ZrUTb8Nag8wFqGaP1UXU6EFQScDinUwuco2jjRis96Q5CXy7edml