quarta-feira, 15 de junho de 2011

Passos


 

Um painel de pano descendo do teto. É neste espaço artesanal que se gravam as intuições, o surreal dos passos. Passos de antanho e de agora, de amadurecimento e frescor indeléveis.

As flores voláteis e douradas são a estrada de Alice. Depois vem o convite ao mar, num quarto pequeno, o buquê, natureza viva. No quarto maior onde a mãe dorme, a miragem, e novamente, em duas nuances uma linguagem de flores, o claro obscuro em escorridas e femininas liberdades. No corredor o lugar ao léu, a lagoa com três patinhos mansos.

Tem outra cena de lago e ocas ao poente lambendo a crueza das paredes.

O leite no escuro na sala da máquina de costura velha comanda outra vez a dança das flores junto a estante de ferro. Na cozinha os frutos suculentos da época. Em seguida, o novo do lago - não há como não refugiar-se nas águas - reflexos e beija-flores.
O que é isso que a desordem da vida pode sempre mais do que a gente?(Guimarães Rosa)

E os olhares urbanos aguardam algumas das que serão as últimas pinceladas.




Foto- Ariel Tavares

7 comentários:

Mel de Carvalho disse...

A vida, como um pincel, rasga o horizonte das flores perpétuas que acrescenta de efemeridades plenas. E ai, nesse lugar de verde e vagem, brotam as flores que incendeiam de palavras a poeta.

Um beijo minha querida amiga
Todos os olhares urbanos aguardam o retorno ao bucolismo dos passos quem, por vezes, por medo, não damos e que nos tornariam (tão) mais felizes...

Belíssimo
Mel

José Maria Alves Nunes disse...

A arte de Terê transcende, flutua, e como nave nos transporta para os mais diversificados mundos.

Djabal disse...

A nossa percepção trabalha com associações. Elas nos emocionam, e as suas histórias parecem saídas do romance de Macedonio Fernández (minha última obsessão)e esta é a representação da Docepessoa. Tudo fica trêmulo como a página de um dispositivo móvel que pede para ser trocada de lugar. E um simples toque satisfaz o seu nosso desejo. Felicidades, sempre e obrigado.

Salete Cardozo Cochinsky disse...

Querida Tere
Encantada!
Quem diz o que é ou não é ordem para a alma humana.
Ela cria e re-cria sem mesmo que que a comporta perceba.
Gostei desse texto. Caminha-se, acompanha-se os lugares, os movimentos, mesmo daquilo que ali está, como tela, como flores sobre cômodos.
Uma descrição lírica.
Beijos, amiga

Maria João disse...

Belas são todas as cores, de todos os lagos, de todas as`águas, de todas as flores. Quanto brilham esses reflexos, união harmoniosa de cada uma e de todas as pinceladas, traço de união entre o Homem e toda a natureza. Sim, também a sua, em sintonia com tudo o que é vida.

Excelente texto, Tere. Orientado para um lolhar diferente e muito mais abrangente que derrube a crueza das paredes.

Um beijinho e mais uma vez obrigada pelas palavras e pelo carinho.

Lu Cavichioli disse...

Oi Tere, eu nunca vou cansar de ler-te. Mesmo distante sou pássaro que se abriga em teus ninhos.

Tuas prosas , pedras preciosas são.

meu afeto

Lu C.

Tere Tavares disse...

Mel,
Salete,
Zé,
Lu,
Djabal,
Maria João,
...é sumo doce o que abstraio das palavras que deixam por aqui. Obrigada pela companhia.

Abraços