sábado, 19 de março de 2011

Almas


De onde a intensidade do brilho captará toda nudez das emoções.

Eu estava sobre uma toalha branca de fino bordado. A mesa sustentada por colunas de madeira, onde fora esculpido um feixe de trigo, um peixe dourado, um cordeiro de olhos mansos, folhas de oliveira e um cacho de uvas azul escuras. Um livro grande de capa marrom repousava numa estrutura de metal entre os candelabros e as constelações de pétalas.

Chegou. Como se fosse um ser de espécie desconhecida. Serenamente calma pela benevolência do sol que a aquecera permitia-se estar ali como se flutuasse, sem preocupar-se com nada. Agradecia à sua forma sorridente, que mesmo sob as mais inescrutáveis provas, conseguia não deixar exumar-se. Os cânticos eram acréscimos indulgentes aos ritmos próprios. Misturava-se à brancura dos castiçais e cálices ofertando o que tinha de mais sincero, permeando um depositário de anseios e graças alcançadas. A jovem mulher era comum, talvez mãe, e parecia que nada viera deixar ou buscar senão o bem de expor as extensões da vida, o mistério de existir, a força venerável da introspecção.

Percorreu as paredes. Havia nelas outras esculturas, retratando o mesmo homem em diferentes situações: tendo ao seu lado alguém que lavava as mãos, alguém que o ajudava a carregar seu fardo, uma mulher de longos e negros cabelos a beijar-lhe os pés. Gostaria de não dizer que viu o homem crucificado na penúltima. Na décima segunda ele aparecia entre nuvens e figuras voláteis, transparente e rutilante como um anjo.

“Bem aventurados os puros de coração porque verão à minha face, os pacíficos porque serão chamados meus filhos. Vosso pai sabe o que vos é necessário antes que vós lho peçais. Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”. Cada palavra que auscultava era revolvida e tacitamente abnegada.

Segurou firmemente a mão da menina ao seu lado. Pousou uma carícia leve em seus cabelos anelados, nutrindo, fazendo crescer o sentimento como se lhe arrancassem uma porção cada vez maior da alma e findassem por subtraí-la totalmente. Confortava-se corajosamente para assumir a mais bela vitória, por mais morosa que parecesse, haveria de culminar no objetivo concretizado.

Um entrelaçamento carinhoso onde a eloqüência do amor não sucumbe à indiferença que reserva tão pouco de nobre, algo que seria mais do que uma referência de bondade uniria aqueles dois corações mais fortemente do que nunca. Uma frase fraturou a mudez e cobriu o chão: “Um pacto vos fita do alto”. Nunca mais foram as mesmas. Também não retornaram.

Por cerca de dois meses eu permaneci ali. Minhas pétalas se foram e com isso ganhei o jardim amplo dos fundos. Duvidava, com tristeza, que fosse possível renascer no meu novo lugar. O tempo foi passando. Fui regada e cultivada com esmero. De mim brotaram duas mudas muito verdes que alguém deitou em vasos de fibra de coco.

Busquei toda a energia das estrelas para tornar-me ainda mais exultante. No ano seguinte, já em forma de orquídeas florescidas, servi de presente a uma família. Realcei os recônditos da nova casa com todo idílio do mundo. Entre as roseiras avistei a mulher e a menina novamente como se fossem filamentos de mim mesma, revolvidos num espelho.

Foto- Tela "Caminhos" - TereTavares


6 comentários:

Carlos Ricardo Soares disse...

Tere,

é um prazer muito especial deixar-me conduzir pela linha melódica desta escrita. A mim, fez-me focar na sua opção pelo texto bíblico, em especial "Eu quero a misericórdia e não o sacrifício." A opção por referenciais desta grandeza contextualiza a sua ficção em pressupostos cujas fronteiras são um interessante desafio.
Abraço

Djabal disse...

Eu gostaria de descrever a emoção que seu texto despertou:
Partindo do desapego ao sentido do texto, fica uma impressão fortíssima de uma conjugação totalmente espiritual, elevada, tocando o irreal do sentido do amor enquanto verbo, ação, completude.
E a releitura mostra o amesquinhamento do mundo em que vivemos, em sua carnalidade obsessiva, do desejo eternamente insatisfeito.
E por esses dois momentos ficamos varados de paz, luz e harmonia, prontos para abrir a porta. Colocamos a mão na fechadura e...

Meus parabéns. Um abraço fraterno e felicidades.

Anônimo disse...

Tere, eu flutuei na delicadeza de teu texto. Muito bom. Parabéns. Beijo.
Dôra Limeira

Leandro soriano disse...

Colóquio das flores. Um texto perfumado que agrada ao olfato literário.

Abraços
Leandro Soriano

antes blog do que nunca! disse...

"As realidades da alma, por não serem visíveis e palpáveis, nem por isso deixam de ser também realidades." Victor Hugo

1 Bj*
Luísa

Salete Cardozo Cochinsky disse...

Querida Tere
Teus escritos tem esse "Quê" de sensibilidade e profundidade. Cada vez que leio o que escreves me fica um gosto bom, um sentimento de ternura.
Parabéns por mais essa produção.
Beijos