segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Por Outro Lado

Por Outro Lado



Debrucei-me sobre "a sombra das moças em flor". Não seria a primeira nem a última vez que me encantaria por Proust. Antes de revirar suas frases fluídas, havia visitado alguns pontos, quase sempre os mesmos. Mas o meu espírito não. Nele atuavam as estrelas caídas. As entonações de prestar atenção. Postou-se em si mesmo - o lugar seguro e reconfortante - e dos silêncios suntuosamente murmurados, disse-me algo do seu conhecido segredo. Eu não tive medo e ouvi. Também vi, tão logo cessara o que havia mudado. Emudeci, mas somente por fora.


Naquele solfejar deixei descobertos os ombros e os braços. Todo meu ser era outro a dar-se a conhecer. E me encantava. Sem mais nem menos. Eram as individualidades interessantes de alguns costumes insensatos. Apresentei-me como sempre. Sem distrações. Sem os nadas. Em branco. Assim como Freud, não obtive sucesso (nem teria tal pretensão) ao tentar desvendar os mecanismos inextrincáveis da mente – a minha, a de toda a humanidade que há milênios desafia os mais ferrenhos estudiosos.

Autoconsciência, ego, self, deixaram de ter uma necessidade para tornarem-se uma realidade. Ainda que obscuramente nebulosa. Filtrei as diferentes noções e verdades aparentes. Pus-me a caminho mais uma vez. Desta vez com o corpo todo descoberto.


Tela da Autora -óleo sobre tela-l980

9 comentários:

Djabal disse...

Veja só que sincronia. Hoje cedo, peguei um volume para ler e encontrei um conto, com o mesmo sentido, com outra palavras, é verdade, mas que dizia alguma coisa semelhante ao que você concluiu ao reencontrar o do nosso amigo em comum.
"O conhecimento incipiente e equivocado que acumulamos sobre a existência com a visão, a audição, o olfato, o gosto e o tato se complementam e se corrigem. Porque surge a oportunidade de conhecer em sua inteireza a verdade da vida que levamos em nós, que sem o julgamento dos sentidos é a verdade perfeita. A verdade é inexprimível com palavras conceitos e juízos, como é inapreensível pela via dos sentidos." (Géza Csáth)
Eu também fiquei com a sensação de ter saído outro depois de ter lido.
Outro diferente daquele que se sentou a ler.
Obrigado pela partilha. Parabéns pela feitura. Beijos.

Ramosforest.Environment disse...

À sombra das moças em flor, em busca do tempo nem sempre perdido, com o auxilio de Freud e todos os conhecimentos assimilados, será possivel distinguir e caminhar de maneira mais resoluta para as realidades da vida.
Abraços
Luiz Ramos

MA disse...

Hola amiga Tere paso a dajar mi huella en tu blog y leer tus post bellas imágenes y textos.

Un abrazo de MA desde Granada.

Ana Guimarães disse...

"Tenho uma única identidade, a identidade do escrever" - Imre Kertész, no ensaio-romance, Eu, um outro. E acrescenta: uma identidade que se escreve a si mesma.

Beijo, Tere.
Por que você ainda não está no Facebook?

daufen bach. disse...

Olá Tere,

aqui conhecendo teu espaço.
è belo em todos os sentidos!
particularmente encantado com esse texto, leve pra ler mas a interpretação é densa e não é para qualquer ouvido.
Realmente MAGNÍFICO! Parabéns!

Um abraço terno a ti.

daufen bach.

Tere Tavares disse...

Djabal,
Fico feliz por ter-te proporcinonado esse resultado!
Quanto ao Géza, memo não o conhecendo, gostei do que trouxeste dele, procurarei leituras mais. Beijo

Luiz,
Se Freeud ajuda, ainda não sei. Mas sigo ajudando-me, e contando com o tenho de mais caro. Obrigada.
Abraço


MA,
Hola! Muchas gracias. Hermosa!

Ana,
Muito interessante, pois, acredite, ainda há no meio literário quem atribua a outras circunstâncias o que para quem escreve é meramente ficcional. Beijão

Daufen,
Prazer em receber-te aqui. Também apreciei a tua morada. Volte sempre. Abraço

antes blog do que nunca! disse...

De qualquer lado, ângulo...a tua palavra vive e expande-se nua, vestida de maravilhosa arte!

1 Bj*
Luísa

Salete Cardozo Cochinsky disse...

Tere,
"Emudeci, mas somente por fora".
Eis a sabedoria, a aceitação de que ao circular entre outras palavras, idéias, conceitos, podemos formular os nossos próprio.
Em forma de literatura, mas intensamente produtor de saber.
Beijos
Salete

Tere Tavares disse...

Luísa,
obrigada querida - tua vinda é sempre motivo de alegria.

Salete,
querida amiga, acresci as tuas pétalas aqui! Obrigada.

Beijos