quinta-feira, 3 de junho de 2010

Reflexões de um seguidor


Reflexões de um seguidor

Não esperava coerência. Enquanto ouvia um “olá, como vai”, administrava a intenção de estar se saindo bem. A simulação do real tornara-se mais interessante à medida que presenciava modelos encontrados no mundo das próprias idéias.

Quando recorria ao imaginário procurava de alguma forma confrontar-se com a realidade. A leitura, antes de mero entretenimento ou universo fictício, era um lenitivo a lançar luzes ao seu modo de ver os sentimentos, uma forma de se divertir, entreter, tocar o coração e clarificar as tessituras da inteligência, além de permitir-lhe um distanciamento, ainda que minúsculo, das vicissitudes impostas pelo cotidiano.

O inviolável prazer de filtrar-se no enredo, no caráter e na personalidade dos personagens o revestiam de irresistível fascínio.

A utopia, lugar e não-lugar passavam a povoar com indescritível fluidez um imponente invólucro de subjetividade; novas eficiências que fazia questão de não interromper.

A magnitude de um alter-ego revelador de aspectos éticos e psíquicos eternamente discutíveis denunciava o erro de rebaixar a experiência direta da vida em função de “outro mundo” como condutor da essência perfeita da personalidade humana, como se a realidade fosse algo enfraquecido. Considerava essa idéia a madrasta de todas as ilusões. Quem não gostaria de uma segunda vida? O simulacro é um risco tão inevitável quanto à atitude de Narciso quando se atirou à própria imagem refletida na água para sucumbir afogado.

Talvez se iludisse por sensatez. A inconseqüência nem sempre seria nociva. A hiper-realidade era, por vezes, capaz de suplantar seu próprio ser. Pouco sabia do intangível e anônimo regresso da verdade implícita em todas as imperfeições.

Embora reconhecesse as presenças espectrais como as mais reais e invisíveis, não se preocupava em deixar esquecidos nomes e rostos, paisagens e almas que nutriam com fé inabalável o que estava ao alcance dos olhos e do toque por revelar-lhes, com todas as interfaces e misérias, a alegria trágica de não querer estar para além daquela janela de braços amigos a socorrê-lo quando, ao sonhar que dormia, caísse em queda livre sobre a cidade.

Tela-Observadores-TT

16 comentários:

Madalena Barranco disse...

Tere, querida, você revestiu o clássico Narciso de contemporaneidade, como se fosse uma pintura de um quadro que atravessa as épocas mantendo-se indelével. Adorei a forma como ressaltou a necesssidade do imaginário como ponte de salvamento do excesso de realidade enganosa. Adooooro seus escritos!!!

Beijos, Madá

Ricardo Calmon disse...

Te ler é intensamente viver!

Viva La Vida

bzu na alma

quicas disse...

Seguir, seguindo-se, ou o jogo de espelhos com formas eventualmente caricaturais...
... ou, ainda, entre o real e o imaginário, num percurso subjectivo, idealidade ou sonho: "... Pouco sabia do intangível e anônimo regresso da verdade implícita em todas as imperfeições..."
Para reflectir, de verdade, intensamente!
Beijinho

Carlos Ricardo Soares disse...

Tere,

entreteces aproximações da realidade ao ideal, ou simplesmente imaginário, que reflectem o percepcionar do mundo como um processo de ecos devolvidos da realidade à ideia (ou mesmo ideal) e destes à realidade. E colocas o problema do ideal subjectivo na senda do ideal universal, também aqui lembrando-me Platão.
Um grande abraço

Djabal disse...

“A descoberta dele, é que o homem não está completamente dentro do homem.” Freud-Lacan

"Eu sou um outro." Rimbaud

Um poeta e dois psicanalistas estiveram perplexos diante da incapacidade que temos de nos conter. De nos contar. E a infelicidade mitigada pela poesia, pela análise exaustiva, e pelos textos. São todos nuvens esfumaçadas que embaçam o céu. Dando mais vida, mais vigor, mas sempre nuvens. Precisaríamos de asas, para voar? Ou ficaríamos naquela janela?
Beijos e meus parabéns, minha estimada amiga poetisa.

luís filipe pereira disse...

Estimada Tere Tavares,

gostei imenso desta sua construção poética:
desde logo, a mistura, o palimpsesto, de géneros que vão da prosa, ao ensaio passando, como sempre acontece na sua mundividência estético-literária, pelo poético. "reflexões de um seguidor" fazem-nos reflectir sobre o modo como realidade e fictividade, como visível e invisível, simulacro e ideal (linha de ariana platónica e continuada, com grande fecúndia, pela teologia negativa, p. ex. em M. Eckart)se entretecem, se soprepõem numa fronteira de água onde o sol batesse com uma explosão de miríades, interpela-nos ainda a revisitação de Narciso para um repensar da imagem e do imaginário, da sua força, do seu excesso de realidade.

grato pela partilha,
luís filipe pereira

MA disse...

Precioso felicitaciones estimada amiga.ES un placer visitar tu casa y ver tus bellas obras.

Un abrazo de MA para ti.

Mel de Carvalho disse...

Um trabalho magnifico este, Tere.
Já o tinha lido, vim só deixar nota de meu agrado.
Importa reflectir.

Um beijo amigo
Mel

Ricardo Calmon disse...

Fraterna e inesquecível amiga e madrinha,para mel teu literário absorver,mais um pouquito,cá estoy,ousei renovar minha ternurae respeito por ti em blog meu,e um lindo selo produzi,se nã aprovares,por favor,me assinale!

Viva La Vida!

Tere Tavares disse...

Queridos leitores (as)

De surpresa em surpresa, o re-nascer. Grata, afáveis amigos, inclusive pelos comentários deixados no vídeo do youtube.

É importante registrar que a cada interlocução convosco sou enriquecida enquando ser e aprendiz de palavras.
Sinto-me feliz pela amizade e distinta atenção. A cada um de deixo meu melhor abraço.

Ricardo Calmon, vi o selo, claro que aprovo! Adorei a ousadia da sua ternura, em respeito e amizade nossa, fraterna...obrigada, mais uma vez. Felicidades a ti, à doce Vitória, e a todos os teus.

Desejo a vocês uma ótima semana, felicidades, sempre.

Salete Cardozo Cochinsky disse...

Querida Tere
Antes de mais nada quero agradecer a oportunidade de ouvir e ver-te ao "vivo e a cores" através da entrevista. Naqueles dias não tive a oportunidade para comentar.
Leio agora esse magnífico texto.
Espelho e espelhado de uma alma poetiza que re-faz percursos e "mira-se" através do real e do imaginário.
Suportar e apropriar-se de si mesmo que sabe-se que existem meandro, pregas, é saber também das "brechas" e embrenhar-se por elas para viver esse intenso e intrínseco ser que encontramos.
Beijos

OBS, espero que aos poucos, agora, noticiando-te o óbito de meu irmão dia 03/06, que eu tenha condições de voltar a escrever.
Beijos

Tere Tavares disse...

Salete, querida amiga,
Bom "ver-te" a replicar nesse humilde espaço.
O re-passar das vivências são também vida que cursa sem que se possa intervir em seu indubitável desaguar. Meus sentimentos pelo seu irmão.

Quando retornares às palavras saberemos também da tua recolha, noutra casa amiga - a que chamamos Literatura.

Beijos.

antes blog do que nunca! disse...

É preciso prudência para não nos deixarmos "enganar" pelos sentidos. Nada melhor do que uma belíssima reflexão para clarear horizontes e obter a melhor vista.

1 Bj*
Luísa

Ramosforest.Environment disse...

A crise é a véspera da solução. A incoerência aparente pode ser o caminho para a realização.
Nem sempre o melhor é esperar que um amigo nos salve da queda livre.
Durante a queda, o melhor é liberar as asas que relutamos a reconhecer que as possuímos. E dar a volta por cima.
Talvez a inconsequência sem sempre seja nociva.Paradoxos.

Luiz Ramos

Rosemari disse...

Tere querida

Entre o real e o imaginário existe o espaço entre o ser e o não ser. A face escondida revela aspectos inatingíveis do psiquismo ,não comprensíveis e que nos colocam em riscos inevitáveis.
Parabéns pelo texto amiga, você e suas reflexões profundas que falam diretamente a nossa alma.

beijão

Rose

Tere Tavares disse...

Novamente agradeço pelos ecos recebidos, Luisa, Luiz Ramos, Rosemari. Caminhantes somos e estradas há!
Beijo