quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Pedra do Dia



Na sala pequena e quase escura, deparou-se com a coleção de preciosidades dispostas em bandejas forradas de algodão branco: ali repousavam ágatas, opalas,todas as variedades do quartzo, flor de ametista,
turmalinas, murion, água-marinha, jade, jaspe... Quero essa, disse ao guardador de pedras... Será sua, aquiesceu sob as lentes de quem há anos reportara a arte para além da própria experiência. Tenho que me concentrar para assentá-la na base, e é preciso muita calma e meticulosidade. Eu espero, sem problemas.

Naquela tarde chuvosa e aparentemente sem surpresas,os olhos brilharam como as gotas dos losangos
pequenos e sutis, até que chegasse a noite. As nuvens não interromperam o choro. A rua bem o dizia com seus pequenos riachos de enxurrada. Adiou-se por detrás das chaves, dos betumes que coloriam as aberturas de ferro, pensou em sair e ver o sol suando o meio dia que houvera passado longe da tranca sólida, bem mais impassível que as mãos, que mal conseguiam irromper um delta pela portinhola da sala. Entre os vincos de vidro e uma prisão invisível, ganhou a pedra lapidada e flexível pela qual talvez tivesse esperado toda uma vida.

O dia seguinte, quando a manhã igualmente se derramou para recolher-lhe o sorriso em meio à brandura do corpo, abarcou ócios palpáveis como se tudo se afastasse num torneio de resistências – levantando pesos como brincadeiras enquanto o anel de ametista descansava entre os dedos feito um olho feliz.

(do livro Entre as Águas)
foto da autora

4 comentários:

Adroaldo Bauer disse...

UMA CERTA PRESSA EM DIZER E UM CERTO VAGAR PRA CHEGAR. NO INTERVALO, UM LUGAR OUTRO, DA SALA PRO QUARTO. DO QUARTZO PRA AMETISTA. PEDRA DE TODA A VIDA.

Madalena Barranco disse...

Tudo um dia passa pela lapidação, revelando o olhar de um cristal... Maravilhoso texto, minha querida Tere!

Beijos, com carinho
P.S.: adorei a imagem:)

Salete Cardozo Cochinsky disse...

Que doçura, que suave e leveza tens em teu estilo de escrita. Fico encantada e sempre lamento não ter esse talento que tanto admiro.
Mas que desagradável seria se todos escrevessem do mesmo jeito, com o mesmo estilo. Assim como que graça teria uma sala cheia de pedras iguais?
As diferenças fazem a beleza e complementam-se criando os espaços, em todos os sentidos.
Parabéns
Beijos

Lu Cavichioli disse...

Tu saiu melhor que a encomenda caríssima!

Gosto da tua ousadia em criar títulos e deles extrair o sumo.

Tuas prosas são dançarinas e flutuam na delicadeza de cada palavra criada no tom (velado)de um lirismo particular de outros tantos-teus momentos.

meu afeto
beijos

LU C.