terça-feira, 2 de agosto de 2011

Me ninas dos Olhos



Me ninas dos olhos

“A nitidez é uma conveniente distribuição de luz e sombra.” Goethe

Resolveu conversar com as pupilas. Não havia como isentar-se dos reflexos – apropriar-se é perder.

Voltou para a rua. Sentiu, secretamente, uma indizível sensação de alívio ao perceber a possibilidade de atravessar grande parte do percurso sem permitir atormentar-se com sentimentos comuns. Multidões de visões perdidas. Afinal, quem assumiria sem o risco do erro, a licença para aferir com exatidão, ou total isenção, o condenável?

Investigou com toda a suavidade possível, detendo-se nos semblantes, tentando não infringi-los, como se adentrasse em sulcos intermináveis – usava materiais conhecidos e desconhecidos para percorrê-los, acreditando ter desenvolvido, ainda que rudimentarmente, um método eficaz de observação. Não se curvaria diante de nada imóvel, opaco. Altares da alma – assim chamava os olhares – como afugentar aquelas perseguições vivazes?

De algumas pupilas retirou distâncias, sorrisos plásticos, todas as fundições do arco-íris.  De outras, frases inteiras que mais pareciam um enorme luau de estampas confusas e céu.

Era possível ver um imponderável manto de cores e interpretar o que nem imaginava compreender. De modo que lia os olhares difusamente e, retratados na sua incredulidade interior, também seus corações.

Não havia outra aparência que não fosse a que definitivamente se destacava da estranha profundidade de todas elas, pela simples razão de não haver razão para serem diferentes do que realmente eram.

Havia um par, pulsantemente castanho e singular, que conseguiu prendê-lo, talvez, por toda vida: o que vagava dizendo-lhe o que via sem nada revelar, e que o fez absorver-lhe a voz com selvagem interesse: “Sou a dos sentidos de cristal, a afortunada sofredora que tem à sua frente o rol das futilidades repletas, a que nada promete, exceto que haverá encanto enquanto durar o mistério”.

(Desenho da autora)

12 comentários:

Sílc disse...

Linda sua Casa. Estou a passear e tudo me encanta. Obrigada por tanto aprendizado.
Com carinho
Síl
Amei:
Intenções
Quero respirar todo frescor que está ao meu redor
sem preocupar-me com o que se deixou de falar,
sem mensurar a ansiedade que corta
as raízes – quem sabe das lágrimas e seus liames –
sofrer consciente de que passará,
como passa o mar e seu doce lamento.

Quero edificar novamente o que poderia ruir.
Não importa que não percebam.
Prefiro ver os perfumes e os gestos,
os flocos em liberdade,
como estrelas maduras
espalhadas sobre mim.
E, ao reabrir a festa que não se findará,
confundirei com o céu
o meu limite não convencionado.

Sílc disse...

Tere, tão lindo o Poema "Intenções", que o publiquei no "Mínimo Ajuste". (http://minimoajuste.blogspot.com/)
Espero que o aprecie.
Com profundo respeito,
Sílvia

Tere Tavares disse...

Olá Silvia,
Que alegria ter a tua vinda, a companhia. Senti-me não somente feliz, mas duplamente honrada, pelas tuas leituras. Agradeço o carinho de teres publicado o poema "Intenções" no "Mínimo Ajuste". Uma flor que colho neste constante caminhar!
Um abraço, felicidades, muitas.

Salete Cardozo Cochinsky disse...

Tere, querida amiga e poeta
O ser e o ter concomitante e simultâneo movimentando, instigando a uma busca infindável, existencial.
Amei o texto. Parabéns
Beijos

Djabal disse...

"É preciso estabelecer uma cumplicidade com o objeto que se está desenhando, até que se chegue a um conhecimento profundo dele. Não se desenha bem quando se conta uma mentira. E inversamente: se, num desenho de observação, você chegou a dizer a verdade, o desenho será automaticamente um bom desenho. Uma outra dificuldade do desenho de observação é que ele obriga a encontrar respostas para perguntas nunca antes formuladas. O que se produz no trabalho de estúdio muitas vezes responde a questões já conhecidas."

Esse pensamento de um grande artista plástico indica que o seu desenho é ótimo e encontra para questões formuladas muito raramente na literatura. Beijos e felicidades.

Tere Tavares disse...

Salete,
"veramente" verdadeiro!

Djabal,
Guardo também esse outro pensamento de outro grande artista plástico:
"A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade".

Duplo abraço.

João Esteves disse...

Me ninas, sim. E por que razão não me ninarias? De uns olhos de não se esquecer. Assim seu texto, Terê.
Rico. Foi um prazer pra mim retornar a este blog.

Tere Tavares disse...

João,
Olhares que são sempre ternura e amizade. Obrigada pela visita.
Abraço.

Outros comentários:
http://www.escritartes.com/forum/index.php/topic,32653.0.html

Madalena Barranco disse...

Tere querida,

Ah, os olhos trazem o olhar a tona, e tudo que está dentro vai para dentro do outro olhar... Amei a relação entre meninas e pupilas, e o significado de sua reflexão.

Beijos, com carinho
Madalena

Maria João disse...

Tere


"Conversar com as pupilas"...

A expressão, para além da beleza poética em que está imbuída, reporta-nos para uma comunicação singular, própria do detalhe com que se borda a alma humana e na qual a nitidez nem sempre é uma clara distribuição de luz e sombra, mas antes uma aguarela brilhante cuja cor é sempre muito particular.

Adoro os teus textos!


Um enorme beijinho

Tere Tavares disse...

Madalena,
O olhar é imenso - como o mar.

Maria João,
E eu adoro quando vens!

Voltem sempre amigas queridas, meu abraço.

Isa Lisboa disse...

Por vezes as amarras vêm dos olhos mais inesperados....