domingo, 5 de dezembro de 2010

Minicontos - Publicação em Portugal


Garbo

Ocre, vermelho, verde, tons de areia e terrosos. Indumentárias coloridas, tramas do tear lavado a suor, o ashanti, o kentira, em desenhos bordados a pedrarias e pinturas, cujo fundamento e motivação se estendiam feito céus almofadados sobre o chão. Quatro mulheres em meio à plantação de milho e capim: danças a rememorar tempos onde nada era segregado em mundos ou deuses. Pés descalços, todas elas, como a solidão daquele espaço longínquo, fitando holisticamente a simbologia da criação. Seres singelos e esguios, sem máscaras, sem referir qualquer necessidade de auxílio. Religadas num cosmo de quase total liberdade. Com os braços a balançar as mãos compridas e fortes sobre as túnicas salpicadas de secura. Como se em seus semblantes amáveis e sorridentes se pudesse ver escrita toda a história – antes e depois de Soweto.
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No crepúsculo todas as cordas são pardas

As sutilezas do céu derramavam-se confusas no seu dorso. O cristal árduo e indefinível dos dias não declinaria de nutrir-lhe as veredas com os lirismos da Terra e a sintonia do homem superior. Irrompeu num porto revolto e destroçou o inalcançável para ferir de imensidão aquela ingênua intensidade. Um tanto disforme e irresignável iniciou um andar trêmulo e mortiço sobre as pedras que poderiam ser cães ferozes ou uma cidade quase sem escândalos. Não fora programado para crer na escuridão. Queria encontrar uma abreviatura em que coubesse como aquele pequenino. Apesar de ter-se transformado, o recanto da sua calma não se modificara enquanto esteve lutando – por uma nova máscara, por qualquer transição calada que se levantasse, ainda que momentaneamente, numa parcela de misericórdia e outra de segurança.
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Textos publicados na coletânea "A arte pela escrita três" (2010) organizada pelo "EscritArtes" editada em Portugal pela "Mosaico de palavras editora".
Foto TT

8 comentários:

Djabal disse...

Os dois contos parecem complementares em um ânimo.
Falando de religação com o cosmo, para logo depois contar do crepúsculo,e a transformação.
Mas acima de tudo eles criam uma unidade, um ambiente que vai além das palavras, todas extraídas para formar a transcendência. Além da história. Parabéns. Como sempre ficou magnífico. Felicidades fraternas. Beijos.

Madalena Barranco disse...

Tere querida... Parabéns pela publicação - seus contos fazem bem e trazem a consciência tão necessária aos corações.

Soweto (fui pesquisar) e descobri que existiu na África do Sul como foco de resistência... E em seu texto os pés descalços provam que são calçados pela total liberdade cósmica. Que lindo. No outro conto, em que o "recanto da calma não se modificara", traz a verdadeira natureza do Ser incólume em qualquer situação. Belíssimo!!
Beijos, muitos beijos querida,
Madá
P.S.: estou com blog novo (um outro - rsrsr) em que me arrisco a fazer notas sobre a espiritualidade. Senti que precisava escrever tudo que me ia na alma há muito tempo - rsrsrs Obrigada.
http://petalasestelares.blogspot.com

antes blog do que nunca! disse...

Tere,

eu estou muito emocionada. Com o que escreves, pintas, falas...és...

(Estou agora aqui mais uma vez a ver aquele video que narra a tua exposição "mar és"..."procurar entre as areias, o passo")

Obrigada por tudo quanto transmites: belo!

1 Bj*
Luísa

ANTONIO DE JESUS disse...

.

TERE

Somos poucos. Um "resto" insistente que não desiste na sua paixão pela palavra transformada em cenários, personagens, ações e sentimentos. Você é ímpar nessa busca e nos honra com a sua convivência e a sua obra criativa.

A suas últimas publicações - aqui e lá fora - são uma confirmação: a expansão da luz não comporta limites, especialmente os geográficos.

Pa-ra-bens!
Do seu amigo e confrade

ANTONIO DE JESUS
Da Academia Cascavelense de Letras

Ricardo Mainieri disse...

Tua prosa ingressa, a meu ver, no universo da prosa poética.
Neles, também, observo elementos do surrealismo e do simbolismo arquetípico de Jung.
Linhas para ler e reler, buscando a interiorização.
Parabéns, pela publicação em terras de além-mar.

Beijão.

Ricardo Mainieri

Anônimo disse...

Tere, eu pouco visito blogues, por motivo de estar sempre com um montão de coisas para fazer no computador ou fora dele. No entanto, estou sempre arrumando um tempinho para visitas rápidas aos blogues dos amigos, para ler, reler e pouco comentar. Nos tempos em que interagíamos com mais frequecia, você fazia poemas, e que lindos poemas. Hoje, eu me surpreendo com essa sua nova fase literária. Finalmente você está percebendo o quão prazerosa é a atividade de escrever mini contos. Parabéns. Quero vir mais vezes ao seu blogue. Porque vale a pena. Beijo

Ramosforest.Environment disse...

Tere,
Gosto de "ver" seus escritos. Leio e vejo o que Você escreve e pinta com palavras, poesia e cores.
Felicidades no Ano Novo.
Abraços
Luiz Ramos

Madalena Barranco disse...

Tere, querida, obrigada pela visita... Agora, eu aguardo ansiosa seu post para ano novo, pois você sempre pinta as palavras com as cores de todos os corações.

Beijos beijos