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| Teatro |
Carta sem destinatário
A alma se liquefaz com sua força imensa; nem por isso menos insegura. Animou-se por estar diante de um incalculável delírio. Inconsequente, porém lícito. Não se fixaria num prumo de onde sobreviessem más idéias.
As nuvens dançavam por entre as frases que encontrava com a benevolência contínua do calor. Dissoluto, passou por uma livraria. Sem tempo para entrar observou à distância as preguiçosas pilhas de livros suspirando na vitrine. Imaginou a última indolência no folhear de uma obra. “A alma pergunta e o livro fala.” Os motivos eram silêncios ensurdecidos.
“Tão incomunicável é o pensamento mesmo entre coisas muito próximas” – expressou-lhe algo notadamente melancólico, mas de sorriso tão amável quanto às sementes mais fecundas. “Às vezes uma mentira salvadora é mais nobre que uma impiedosa verdade.” Fechou-se junto a essa dubiedade, numa política suntuosamente fiel.
Assentiu a um aceno apenas por polidez. Sentia-se pouco à vontade diante de estranhos. Era de seu único interesse o que sentia ou imaginava sentir. “A dúvida não se ampara em acasos.”
Voltou a refletir sobre os aspectos daquele repentino remorso – única herança obtida entre um e outro chiste daquele dia onde muitas promessas se quebraram – mais fugaz que um instante e talvez por isso com estruturas tão indeléveis, como o sal angustiado do vazio que se seguiria, ou a veemência de que não ressuscitasse nada – rugas de uma jornada irrepartível de menos de uma hora. O tempo sabe ser cruelmente profético e inteligentemente arrebatador.
Adorava estar solto, tão inóspita era a verdade onde se dispunha a caber. Como se nas lágrimas atenuasse a secura da voz, madrugava em reminiscências bondosas, refugiando-se na possibilidade, ainda que remota, de mais algumas revelações felizes.
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