domingo, 6 de julho de 2014

E foram rasgadas as leis

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                          Auguste Renoir - Girlhood - Drawin

E foram rasgadas as leis
que sobre nós não absorveram
a mensagem truncada afirmando
que os incensos haviam se multiplicado
e aprendido a comover os reis e os réus
nossos olhos veriam a felicidade
derramando-se nos cântaros infinitos
quando, por fim, já não seriam necessários
nossos ombros -
somente as alianças emolduradas dentro dos livros
por escrever. De coração e alma limpos.


Poema by Tere Tavares

terça-feira, 17 de junho de 2014

Sem pena de ter

"Mulher Lendo" 1874- Pierre Auguste Renoir


Sem pena de ter


A Igreja tinha um cheiro de antiguidades. Um balcão repleto de livros cobertos de pó obstruía o corredor. Algumas abelhas se distraiam pousando em velhas imagens que rodeavam as paredes. O rapaz passou as mãos de leve nos pés quebrados de um Santo Antonio. Uma lástima deparar-se com tudo naquele estado. Ele também tocou os bancos de jacarandá. Sentou-se.

Tanta atenção lhe despertava o lugar que quase esquecia o que o levara até ali.
A moça da rua de ontem. Como não atender-lhe as dúvidas, esquecer-lhe o tom suplicante?
Daria cabo do seu egoísmo cumprindo a promessa. Antes rezaria pelos mortos com a mesma devoção que o faria para os vivos. Pediria pelo fim da angústia dita esperar, da enfermidade nominada crer, e tudo o mais que lembrasse as tristes ilusões do mundo. Pediria perdão pelo que pedisse e pelo que pensasse.

Naquela manhã de Maio morrera a morte do seu olhar na moça da rua de ontem. O assíduo assédio daquela alma se estendia sobre o silêncio daquele cenário gasto. A manhã de Maio era ali, com ele, ajoelhado, mentindo qualquer escrúpulo, revelando ocos de fora e de dentro. O resto era medo que o deixava na margem lúcida de próximas águas. O repasto, a moça da rua de ontem.

Vestia a viva ânsia de sair o mais depressa dali e levar-lhe o que a cobriria como a uma rainha. A sua. A imagem de ouro de Santa Rita. Um pé na escadaria e outro na rua. Voltou. Queria também os livros para salvar o amor no amanhecer e no poente.

do livro "Meus Outros" 2007 by Tere Tavares

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Era uma vez a preguiça

Era uma vez a preguiça

Chegou por uma janela verde e se multiplicou em várias outras janelas. Avistou uma figura humana que portava na cabeça um chapéu de palha: “O homem do futuro é o homem holístico” disse o chapéu da figura humana à cabeça da janela verde “A simplicidade é um mistério muito simples”. Acordara sonhando que era a figura holística ou o futuro de chapéu esverdeado a sonhar que dormia acordado. 

Outro homem, de baixa estatura, cabelos sebosos, roupas esfarrapadas e maculadas, acompanhado de uma mulher de longas tranças usando uma tiara de moedas antigas, saia abundante e rodada; dirigiram-se ao deserto verde do chapéu marrom. Passaram pelo quarto da vestimenta artesanal: “Viemos cumprir a missão”, disseram em uníssono exibindo um baralho. A mulher pediu à figura humana ou ao seu chapéu que se aproximassem. Começou a rodar vertiginosamente no mesmo instante em que três gatos – um angorá turco, raro, com um olho azul e outro amarelo, um siamês e outro malhado, também se aproximavam.

Num olhar sábio e terno o angorá roçou-lhe as pernas ronronando palavras aparentemente ininteligíveis com as três línguas que ainda lhe restavam. “Impressiona a quantidade e a qualidade do que julgamos conseguir ou conhecer antes ou depois de nós, não”?

Os gatos olhavam para o casal verde da janela esfarrapada e para a figura de janelas humanas parecendo sorrir inutilmente para as honras da casa e os idiomas do chapéu. O persa malhado cochichou para o angorá: “Sansão, está na hora. Será que estão preparados?” Os dois felinos paralisaram ao ouvirem de uma carta a voz empastada avisando que a mesa seria servida em seguida. “Tenho minhas dúvidas de como falam as cartas. Aprendemos, mas nunca o bastante para esquecermos de novamente aprender.
O futuro é de quem pensa. Depreender é uma quimera enigmática e intransferível que a humanidade inteira se recusa a definir” – disse o herói quase acovardado após ocultar-se num  número obtuso que seria imediatamente substituído por outro número de melhor aspecto e valor. “A dor é sozinha”, repetiu antes de sumir inexpressivamente noutra soma de um sem número de indivíduos. Ou cartas.

Continuaria ousando imorredouramente enquanto esperança houvesse. “Há quem seja nessa multidão de moucos, há quem ouse em meio às vozes emudecidas, há quem chore quando já não se acredita em lágrimas, quem resista quando já não é possível (?) resistir”. As idéias ou a falta delas não seriam limites. “Talvez, um dia, se possa alcançar uma fraternidade verdadeiramente culta. Libertas Quæ Sera Tamen!”.

Esse era o seu quadrado. Liso. Deliciosamente aflitivo.Talvez a percepção seja um senhor inominável, porém reconhecível, não a qualquer um, mas à maioria senhora de um senhor qualquer, controvérsias, mal ou bem-humoradamente levadas a sério. O poder das coisas deveria atuar a favor da vida, como presentes. Aos diferentes cabe a sina de o serem, reconhecerem-se felizes, porque o normal não é de admirar embora tenha o mesmo merecimento. Ponderar porém, fica distante da beleza perspicaz com que nos brindam as margens – sustentando águas de um rio revolto, e ao mesmo tempo manso, porque é singular e inevitável o seu curso”.

Não soube até aquele ponto de onde retirara as palavras, se dos gatos, da figura verde do chapéu humano, ou da sua própria cabeça. Do lado oposto.

do livro "Entre as Águas" by Tere Tavares
foto by Tere Tavares



sexta-feira, 4 de abril de 2014

Anoitecer em Ipioca - Óleo sobre tela - 50x70cm - 2011 - Tere Tavares


Essa tela está como capa da Revista Ponto de Vista,
Acompanhada desse poema:


Cântico do Cântaro


Essa raiz de água
Esse oráculo de agora
emoldura um reino disposto ao sol e à noite
alcança um porto de melodias inolvidáveis,
as colmeias da alegria suspensas nos salgueiros
a erva sem fronteira minguando em terraços de páginas,
num soluço de semeadura, madura e abstrata,
no extremo e frio traço da manhã
ungido pela caixa acústica do mar
Tudo branco, mas não sem cor.

Do livro "A linguagem dos Pássaros" By Tere Tavares Editora Patuá 2014