domingo, 5 de janeiro de 2014

Porque o amor era profundo e a luz era cheia


  • Atravessou o dia sem que o tumulto o ferisse. Quando venceu a última alameda reforçou a certeza de haver forjado algo mais que uma simples defesa. Fosse de si mesmo, fosse dos grupos que, invariavelmente, se postavam num ponto qualquer do trajeto quiçá para arrebanhar futuros furtos ou consumidores potenciais de mercadorias ilícitas – novas vítimas.

    Tinha o resto da tarde livre. Passou pelo portão eletrônico. Desceu do carro, ligou os alarmes. Acelerou os passos para entrar em casa. Sentia-se protegido ali no seu pequeno símbolo de bem estar, ainda que angustiosamente.

    Ao chegar à sala viu-a no alto da escada, ignorava se frustrada ou feliz. Parecia calma e convidativa. Diferente dos outros dias, não indagou “porque veio mais cedo hoje”. As cortinas estavam semi-abertas e ainda filtravam das janelas os apegos diurnos.

    Ela sentou em silêncio no último degrau. Descalça, descansada. O emprego se fora há dois meses. Não suportou a idéia de que lhe dissessem sempre o que abordar, quando e o que compor – coisas a que nenhuma criatividade, por mais versátil que seja, deixa de sucumbir. Faria o curso tão sonhado com a bolsa de estudos que conquistara com tanto esforço. Já dominava um terceiro idioma. Finalmente o antigo projeto redesenhava-se. Ainda não lhe dissera sobre isso. Ultimamente seu interior parecia maior e mais intransponível do que qualquer outro lugar.

    Olhou-o como se não o visse há muito tempo. Os cabelos lisos e bem cortados. O corpo bem feito, jovem como o seu. Com sonhos? Era distante a última vez em que se lembrava haver lhe dito que o amava. A recíproca não era verdadeira.

    “Estou aqui imaginando qual a melhor forma de te tocar”, inclinou-se segurando o violino numa fatigada esperança. Nem menos árduo nem menos belo do que sempre fora. Ela pousou a cabeça no seu braço. Sentiu o calor suave da sua presença. Havia algo nele que a iluminava. E ele sabia. Como se ela fosse todas as estrelas e o sol.

    Para uma luz que acalenta outra luz nem mesmo o silêncio da música que anseia nascer parecerá opaco. Entre um perfil e uma face há bem mais que um simples testemunho. Não era preciso quebrar o encanto daquela plenitude com nenhuma palavra ou gesto.

    Ele não resistiu. “Eu sempre soube quando partias.” Escutou-o sem nenhum sobressalto. Ela balbuciou tepidamente a única dignidade que imaginava restar-lhe para calar o vazio que viria em seguida. “Nunca o fiz sem levar-te comigo.”

    Texto do livro "Entre as Águas" (2011)
    Foto by Tere Tavares.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Acácia - na Germina Revista de Literatura e Arte


http://www.germinaliteratura.com.br/2013/ageneticadacoisa_teretavares_dez13.htm

Publicação do conto "Acácia" na Coluna "A Genética da coisa" por José Aloise Bahia, a quem agradeço o convite à participação. Agradecimentos extensivos às Editoras Silvana Guimarães e Mariza Lourenço.
Abraço a todos, FELIZ 2014.

PS. Para leitura basta clicar no link acima.

Foto: Germina - Revista de Literatura e Arte, Dezembro/2013.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Odara

Odara

Matura-se em fases tão irresignáveis quanto é certa a sutileza das mudanças, sendo invariavelmente o resultado do que imagina sem evidenciar o que aparenta ao olhar alheio – um desabafo pretérito e inescrutável.

Às vezes pensa em enviar-lhe o último sentimento que o navegou, o passeio que reescrevera no ontem. Lembra-se das coisas que, quase inconfessavelmente, lhe confessou. Conhece-a talvez mais profundo do que alguém que tenha convivido consigo, entretanto, é tão triste perceber que jamais lhe dirá que um dia a percorreu, quanto mais que esteve tão próximo do seu amor, que foi lancinante a voz da razão a retorná-lo, quiçá, a um porto seguro – aprendera com o tempo e guarda isso para sempre – é grato por cada palavra que não trocaram, por cada devaneio que, mesmo agora, ao rebuliço de lembrar-lhe o sorriso, se avizinha dele, na mente, na pele.

No alto do seu quinhão de vida nunca perdeu a importância, como se reconhecesse entre todos os anônimos uma alma similar à dele, à curiosidade, à inquietude que, mesmo madura, ainda o habita – e como reconheceria a si mesmo no que desejava se assim não fosse? Fora tão pudico, fora como é, tanta a demora, a fugacidade de estar naquele lugar, naquele dorso irresponsável. E se pergunta sem encontrar resposta ou repelindo-a: porque algo tão breve fora suficiente para impregnar-lhe o resto de todos os seus dias?

Ainda não conhece toda a química com que foi feito. Fora do seu espaço há outros espaços que o incitam indefinidamente à busca. Como não identificar-se no que explora, como sendo ele próprio a descobrir-se? Do contrário, como nasceriam, quanto se tatuariam de si os ocasos do mundo?
Nas linhas cujo espelho inevitavelmente o reflete, não é possível refletir – suspenso como um ponto hesita entre ser sensato ou enlouquecer. Percebe que as margens jamais se encontram e, talvez por isso, permaneçam inseparáveis singrando, indeléveis, o placentário espaço de onde tudo surge.

Com deuses bons e maus a lhe agarrarem o pensamento confia nas palavras como alguma coisa que não degenera. “Mesmo que o amanhã não surja não será por que o mataste, mas por que terás morrido antes que ele chegasse”.

Ouve de um Sadhu que a verdade não supera a busca pela verdade. E que belas sílabas sibilam por entre os minutos esculpidos de sua presença. Vê-se como um anjo azul que se recusa a cair, um velho cancioneiro que ainda é juventude.




Um reino entre as formas

Uma sinceridade fingida dava palavras ao silêncio – alimentando as que, pela manhã, despertavam como heroínas sorridentes, sem o lamento da derrota ou o delírio de imaginá-la, para redimirem-se ao final na arena da linguagem, umedecidas, como se fossem compactadas ao corpo em correntezas de um curso sem som, comovendo as raízes das horas que sucumbiam aos enigmas, alimentadas pela clorofila das nervuras folhares – a inevitabilidade.

Os olhos de um verde lavado, os cabelos cacheados a colorir-lhe a beleza com as nuances da terra. Sua impaciência era semelhante à felicidade. O entardecer lento adormecia na areia... as pétalas de espuma perfumando o mar, feito de recifes e algas, deixando no seu rosto de olhar celeste o calor de uma selvagem ternura, como se, entre as ondas, caminhasse seu coração de conchas saltitantes, esverdeado e profundo sob as estrelas do céu.

Em tudo permanecia sua invisível presença, os fabulosos homens do mar, homens do sol, completariam o entardecer com sua tez de cobre e seus músculos de música distantes como o dia, as rochas de pele corroídas pela luz. Sempre adivinhava quando chegavam, amiúde, com agitada conformidade os esperava.
O terror afogava-lhe os gemidos como uma pequena vaga entre os barcos escuros, uma razão sem memória na sua inesquecível insistência de loucura. “Deus, somos uma lâmina de pó no pendor de tuas virtudes”. O rosto banhado de recordações parecia não ter idade como o perfume frio das laranjas. As folhas acolchoadas de tíbia neblina preenchiam o resto da tarde dourada.

Descansava no jardim com seu destino sem confidências ou favores, o assombro de texturas singulares, a tristeza de matriz invariável sobre a névoa espessa das serras num trajeto carregado de vazio e sombras, resplandecia, lama sólida de uma luz agressiva, nascendo num diamante rubro para iluminar outra e outra noite.

As coisas que ao mesmo tempo se alimentam de vida e morte não duram indefinidamente. No hálito frio da madrugada extasiava-se numa curta eternidade. “Todos os rostos são muitos rostos”. Uma espécie inconsciente de felicidade elemental, um estado ao mesmo tempo estático e indiferente que anula as recordações e impede ao homem trabalhado insistentemente pela terra, de confortar-se com ela, apoiado no dorso das argilas.

A secreta umidade das lágrimas deixava-lhe a alma caída junto aos pés, carícias neutralizadas pelo hábito, linhas indecisas, flutuantes, ansiedades pausadas acenando mudanças rodeadas pelo fulgor inolvidável das sementes do luar, como um olhar de criança cega que tivesse visto uma película sem tê-la visto – só os detalhes devastadoramente ternos importavam. A acha do tempo, a respiração das árvores acabaria numa cinza ligeira e rosada. Nuvens de fumo com a mesma e completa inexatidão.

Contos Publicados na Antologia  EscritArtes 
 "A Arte Pela Escrita IV` (2011),  Editora Mosaico de Palavras- Portugal

domingo, 15 de dezembro de 2013

Depois do céu




Estro
Há um Silêncio enorme em nós que nos chama acenando, e a entrada neste Silêncio é o começo de um ensinamento sobre a linguagem do céu. Porque o Silêncio é, em si, uma linguagem de profundidade infinita, mais fácil de entender porque não contém palavras, mais rica em compaixão e em eternidade do que qualquer forma de expressão humana. Não há nada no mundo que se pareça tanto com Deus quanto o Silêncio.” - Mestre Eckhart de Hochheim

Não sei se fecho os olhos reservando-me num ruído onde os casulos não vibram. Sou uma canção que navega impérvia na espessura do limbo, uma erva errante que sucumbe sobre as pedras, isenta da sabedoria das vindimas e dos favos. A angústia é uma grade invisível, um anseio por gotas e fogo que me desarma. Com esse diminuto par de luas quero silenciar o incêndio, a água, os fins, o eriçar das épocas. A voz do que amo é um sorriso, um salvamento que se dissipa para desordenar-me. Minha pele é uma canoa que guarda o momento de ser nascente e rio e mar e foz. Algo é brisa e é renúncia e esquecimento ou vício em meus azuis anúncios. Desejo ver na minha nudez a serenidade que cobre a fuga, o jejuar da palavra, a migração das mariposas sem destino. Ou ninguém. Angelical e temporário, persistente como a juventude, como o sol que se recolhe numa pausa sem pálpebras. Não me dei conta das escalas profusas, das perfurações que se desprendiam numa linha indevassável e quase definitiva, inquirindo-me impiedosamente, onde eu havia perdido o melhor de mim. Onde estive quando não estive comigo? Arrependo-me, mas não é suficiente... um pássaro sem murmúrios adormece-me o peito, como cios que não se findam, como a sombra que ilumina a estranheza difundida nas pupilas. Porque é o sol que faz girar a flor. Porque os olhos se acostumam com a luz e aceitam a circularidade retornando àquilo que precede e ofusca. Porque é necessário ser todos e nenhum.


Depois do céu
Ele [Deus] é a riqueza em profusão porque é Um. Ele é o primeiro e o supremo porque é Um. Por isto, o Um penetra todas e cada uma das coisas, e permanece Um, unificando o separado. Por isto é que seis não são duas vezes três, mas seis vezes Um”. 
Mestre Eckhart de Hochheim (1260 – 1328) 

“Tenho todas as faces, sou todos os rostos que desconheço. A palavra não se perde no candeeiro do horizonte e é sempre outra palavra. E tem faixas e agulhas lúcidas sobre o fervilhar azul da pele, o calor glacial dos nervos. Quando enfim se reconstituirão os meus ossos em nódulos robustos beijando-me como estrofes de orvalho postas num piano ou as tranças de uma rede perdida num sorriso ondulado... numa quase amnésia do vento, elã.”

Enquanto dormia despertou, e viu que o amor era somente o amor.

“Arrisco a riscar o chão, coberto por flocos de solidão.”

O que lhe sombreia os ombros são os imensos letreiros arrebanhados nas restingas rudes, nas arenas vazias, são dorsos que destoam o drama das coexistências, os volumes e tramas dos vincos e vivências, intenções desmaiadas no encalço arisco do que se ausenta e persiste e desencontra o tempo que soçobra nos movimentos e assoma em constelações supérfluas, em brilhos escuros que suplicam o arrematar das chuvas, dedilhando deidades e ferrugens, um sol resplandecente para ouvir-lhe a arte que arquiteta nos resgates das analogias e das contenções. Sabe apenas uma pista de si: “Hoje fui a asa que não tive. Meu quinhão é a incerteza dos dias. Por saber a pássaros e prolongar-me neles.”



Agradeço ao Pipol pela Publicação destes contos no Portal Cronópios: