domingo, 15 de dezembro de 2013

Depois do céu




Estro
Há um Silêncio enorme em nós que nos chama acenando, e a entrada neste Silêncio é o começo de um ensinamento sobre a linguagem do céu. Porque o Silêncio é, em si, uma linguagem de profundidade infinita, mais fácil de entender porque não contém palavras, mais rica em compaixão e em eternidade do que qualquer forma de expressão humana. Não há nada no mundo que se pareça tanto com Deus quanto o Silêncio.” - Mestre Eckhart de Hochheim

Não sei se fecho os olhos reservando-me num ruído onde os casulos não vibram. Sou uma canção que navega impérvia na espessura do limbo, uma erva errante que sucumbe sobre as pedras, isenta da sabedoria das vindimas e dos favos. A angústia é uma grade invisível, um anseio por gotas e fogo que me desarma. Com esse diminuto par de luas quero silenciar o incêndio, a água, os fins, o eriçar das épocas. A voz do que amo é um sorriso, um salvamento que se dissipa para desordenar-me. Minha pele é uma canoa que guarda o momento de ser nascente e rio e mar e foz. Algo é brisa e é renúncia e esquecimento ou vício em meus azuis anúncios. Desejo ver na minha nudez a serenidade que cobre a fuga, o jejuar da palavra, a migração das mariposas sem destino. Ou ninguém. Angelical e temporário, persistente como a juventude, como o sol que se recolhe numa pausa sem pálpebras. Não me dei conta das escalas profusas, das perfurações que se desprendiam numa linha indevassável e quase definitiva, inquirindo-me impiedosamente, onde eu havia perdido o melhor de mim. Onde estive quando não estive comigo? Arrependo-me, mas não é suficiente... um pássaro sem murmúrios adormece-me o peito, como cios que não se findam, como a sombra que ilumina a estranheza difundida nas pupilas. Porque é o sol que faz girar a flor. Porque os olhos se acostumam com a luz e aceitam a circularidade retornando àquilo que precede e ofusca. Porque é necessário ser todos e nenhum.


Depois do céu
Ele [Deus] é a riqueza em profusão porque é Um. Ele é o primeiro e o supremo porque é Um. Por isto, o Um penetra todas e cada uma das coisas, e permanece Um, unificando o separado. Por isto é que seis não são duas vezes três, mas seis vezes Um”. 
Mestre Eckhart de Hochheim (1260 – 1328) 

“Tenho todas as faces, sou todos os rostos que desconheço. A palavra não se perde no candeeiro do horizonte e é sempre outra palavra. E tem faixas e agulhas lúcidas sobre o fervilhar azul da pele, o calor glacial dos nervos. Quando enfim se reconstituirão os meus ossos em nódulos robustos beijando-me como estrofes de orvalho postas num piano ou as tranças de uma rede perdida num sorriso ondulado... numa quase amnésia do vento, elã.”

Enquanto dormia despertou, e viu que o amor era somente o amor.

“Arrisco a riscar o chão, coberto por flocos de solidão.”

O que lhe sombreia os ombros são os imensos letreiros arrebanhados nas restingas rudes, nas arenas vazias, são dorsos que destoam o drama das coexistências, os volumes e tramas dos vincos e vivências, intenções desmaiadas no encalço arisco do que se ausenta e persiste e desencontra o tempo que soçobra nos movimentos e assoma em constelações supérfluas, em brilhos escuros que suplicam o arrematar das chuvas, dedilhando deidades e ferrugens, um sol resplandecente para ouvir-lhe a arte que arquiteta nos resgates das analogias e das contenções. Sabe apenas uma pista de si: “Hoje fui a asa que não tive. Meu quinhão é a incerteza dos dias. Por saber a pássaros e prolongar-me neles.”



Agradeço ao Pipol pela Publicação destes contos no Portal Cronópios:

sábado, 7 de setembro de 2013

A Cuidadora de Fontes


A Cuidadora de Fontes

Mostrou o olhar como a orla de uma partitura, tornou a guardá-lo sobre as pálpebras. Semeava-se fragilmente num ondular castanho, como se beijasse seixos marinhos. Seu destino chegara às areias flagrantes que a observavam. As linhas à mostra. Insistentes. Teimosas.

Histórias não contadas lhe serviam estrelas de alquimia aprimoradas a cada cerzimento disseminado pelo espírito inquieto – eram tão perpetuados aqueles poucos raios de luz a balbuciarem o desejo por mais luz.

A investigadora de palavras era a colecionadora de conchas e a colhedora de flores; uma página a tornar-se fértil. “Não tenho o mar nos olhos, mas tenho os olhos no infinito.” Algo pousou em seu peito ensolarado, suplicando para que não acordasse a sombra. “Não tenho nos lábios as palavras; nem a minha alma é a linguagem.” Resumiu-se no zelo esplendoroso de sabê-las inseparáveis de si.

Na desolação que passava ao lado, um convite sugava o nada deposto no que seria a proteção de galhos frenéticos antes de exaurir-se o que imaginara maior.

Uma borboleta amarela vigiava as flores de romã – os frutos amadureciam invariavelmente em dezembro. A cultivadora de frutos, uma impossibilidade realista, talvez existisse para que não deixasse de existir a compaixão. Desapareceu no seio do pomar que a confiscava, desbotando no irrecuperável pendor de quem não configura sementes em qualquer terra.

De dentro da sala os trabalhos do ano anterior tornavam-lhe evidente a inércia involuntária. A forma tridimensional aferia rejeições do passado. Inúteis. Quisera ter agarrado com o silêncio das mãos a paisagem que a despertara, o almejado novo rumo desdenhado ao rigor dos próprios pés.

Que significado submerge do que brota para além do desejo? Transpôs a hostilidade azulada e o amanhecer corriqueiro lhe trouxe do exterior um inescrutável céu, como se a lua abrisse os olhos para iluminar-lhe o coro de nomes que preferia anônimos.

Como se dissipara repentinamente a crua sensação de felicidade que estivera consigo? Sobre símbolos febris recostou o destino de não ser comum sendo habilmente igual à maioria, ainda que para filtrar a mesma vibração ou, de alguma forma, integrar outros horizontes – tão inequívocos quanto era verdadeiro o madrugar despertando o desconhecido – retomando ordens revestidas de extremada bravura.

Assim como não há ferida que resista às cápsulas do que passa, algo inexplicavelmente atraente a retornaria à Flowoers Street. O número não era compatível com quem estivesse só. Nem o andar. Nem o elevador. Nem as faces que a encontraram com aquelas personalidades. Tão ausentes. Todas estranhas e famintas de sal... Todas tão suas sem o serem.

Colheu mais um lírio em cujo perfume tentou adormecer. Depois um girassol. Colecionou insônias na mesma frequência com que vivia sonhos e conchas. Cultivou romãs por mais um tempo. Depois amoras, madressilvas, laranjais. Cuidou e investigou inexprimivelmente marés e nascentes. Depois mais palavras. Depois xícaras de chá. Depois a paz e a linguagem. Pelo resto do tempo: “que tudo possui.”

Do livro Entre as Águas -TT
Foto - lirios -TT

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Um resquício ou as folhas clandestinas


Um resquício ou as folhas clandestinas

Primeira carta: “Os dias se levantam com um gosto único de dias. Preferia um gosto que não doesse nem ferisse. Ando a esmo o mesmo e estranho caminho no raso em que se demora o desmando de ir. Os pés de ipê já floriram, a primavera se coaduna com pássaros de imprecisos trinados. O amarelo no fundo do meu olho é apenas o sol habituado a expulsar a marca de um presente que embora rejeite não posso modificar. Fecho a névoa, a que abrirá o coração cioso e distante que acalenta tantos mundos – acima da fragilidade há os temores findos no segundo em que encontro a inexprimível liberdade de sorrir o conforto das horas.”

Há como enfrentar os sentidos sem cortá-los ao meio? Se a imediata compreensão é possível também é provável refratar um pensamento com outro. Nunca vi a voz que andava de sapatos novos. Não a conheço. Mas é como se a conhecesse. Alguém a descreveu numa outra carta que recebi: “...reside num país distante, é humilde e rica, faz teatro, e, embora às vezes pareça beirar à arrogância, tem como principal característica o rosto angelical e a alegria contagiante.” Escreveu ainda – e não fosse isso eu estaria menos confusa – num Post Scriptum: “consigo meus próprios sapatos e, pelo prazer de andar descalça, há sempre novos pares a minha espera.”

Querida Clarice, em sua homenagem a luz que chora a hora da estrela aprende a viver sua eternidade e a descoberta do mundo se debruça em saber como nascem as estrelas. A bela e a fera ensaiam mais um sopro de vida. A vida íntima de Laura (a mulher que matou os peixes) é quase de verdade, de corpo inteiro. Quando a via crucis do corpo lhe segrega sussurrando “onde estiveste esta noite” a sua felicidade ou liberdade clandestina transforma-se em água viva. Seu espírito soma-se a uma aprendizagem inovadora – o livro dos prazeres – como se desfrutasse continuamente de uma legião estrangeira, ponderando sobre a maçã no escuro, o lustre e os laços de família. Não é de estranhar que perto do seu coração selvagem sobreviva apenas o mistério pensante da paixão. Com atenção: Lispector.


Texto do Livro Entre as Águas by Tere Tavares
Foto by Tere Tavares