quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Dentro ou ao redor do fictício


Dentro ou ao redor do Fictício

"A maioria da gente é outra gente" (Oscar Wilde)

Começara aquela manhã já em seu final com o firme intento de inscrever-se na admiração dos que a cercavam. Talvez por entender que sua obra era uma simples dádiva à bondade. Hester se preocupava em preencher sistematicamente seu interior de luzes e brilhos famintos de expressão – não importava o método.
Bastava servir-se de melancolia, um destino mal vestido, mal tratado. Às vezes, era como uma testemunha fitando algo impossível de confiar a alguém – o que não lhe coubera conquistar. A privação era também um alívio, incontestavelmente persuadível.

Não era necessário contemplar o espírito nômade recém chegado firmando-lhe um vestígio concreto de felicidade diante da etérea escuridão. Obedecendo ao que lhe ditara o coração repassou a torturante certeza de que não poderia retornar ao lugar de onde não há retorno.

Sob o céu reluzente e apesar da aridez forjava um novo intento. Na suavidade da noite impregnava à imaginação o prazer de ultrapassar o desconhecido, o furor inenarrável de criar. Busílis. Eis aí.

Os bosques pareciam uma ordem renascida, uma cantiga de estrelas irredutíveis. O impermanente, as malícias e álibis, tendo à direita e à esquerda o agora, a resplandecência de venerar as inevitáveis brotações do sentimento.
Repercutia, ao tocar, com as suas, outras divisões gravadas em filigranas de infinito, encerrando o que tivera no dia anterior e ensinando-a a não programar o próximo.

Texto do livro "Entre as Águas" By Tere Tavares
Foto By Tere Tavares

sábado, 20 de julho de 2013

Do sal à água ... em multidão


Do sal à água  ...em multidão
De quais orientações me despem os oceanos para se espelharem no espaço em que adormecem e se acumulam as ausências dos meus inícios?
 Ali, onde o óleo perfumado é leito e as armaduras se distribuem em vôos de fantasias reais, se despedem os meios-tons do silêncio de haver mais por regredir, (cá do meu canto sem encanto finjo não chorar cada momento amigo da distância).
Amparo-me em âmagos-motes, povoando um único instante: ser mar e areia confluindo entre margens de oásis. Quando então intuiria que tudo se dota das mais estranhas singularidades?  Seria meu ...ou eu esse mar, essa sereia, onde recolhida em saudade, peso  menos  que o opaco horizonte que me deseja enxergar. O que serei dessa fração não minha, crispada de ventres, sabor e alma?
A cada final de aurora em que recolho o que gostaria de nutrir por muito mais tempo, num ínterim que escapa de um céu iridescente escorrego nalguma rua imaginária, salpicando sinais aos imprevistos que me impulsionam para fora de mim (o algoz tão próximo) as muralhas adornadas de pombas, a coragem flutuante nos ramos de acácia.
Lago do papel que não me ilustra, afago o ocre dos papiros impressos nas orgias outonais, nas cumeeiras das casas à minha frente, dançando em colunas rotas de ternura.
As ilhas de sal que ficaram ao longe me perpassam o corpo com aparições de vidro. A doçura, nívea, se torna compulsiva e me dá uma possibilidade única de vislumbrar-me maior que a felicidade, pecadora ou angelical, quem me implorará sentires nunca experimentados? Dedilho vagarosamente no meu ser a feição mais cúmplice, o jeito que não descrevo.
Como um traço corrompido a lançar-se num abissal infinito, com véus de alguma estrela diversa da minha ousadia, opto,  sabendo que já opção não me resta, pelos mais salgados sais ... sem razão, perpetuo o desfiar dos relicários,  relatos pálidos de ostras, renascendo rapidamente em outra intrusão sem dia nem tempo por acabar... Se partirem-se os meus opostos, acoberto-me na própria engenharia do exercício que me constrói sem dar conta às renúncias por verter.
Obtusa, replanto lírios recolhidos de águas e salinas, muitas outras vezes, apenas para reconhecer o gosto de gostar-me. Com a alma espiralada na praia, a magia do meu regresso se redobra, porque simplesmente não suponho conformar-me em nublados resumos de mim ...como se não conhecesse o pranto  ...o sol insufla-me a carícia do calor em buquês de vinho enquanto o vento, em ziguezagues, me sublinha  a testa com mais uma de suas veredas.
Do livro "Entre as Águas"  By Tere Tavares
Foto By Tere Tavares



quinta-feira, 20 de junho de 2013

Nas divisas de um campo

Nas divisas de um campo

No es bueno quedarse en la orilla...
Sino que es puro y sereno arrasarse en la dicha de fluir y perderse,
encontrándose en el movimiento con que el gran corazón de los hombres palpita extendido. (Vicente Aleixandre)

Com a saudade adormecida no colo pensa não ser considerável retomar o caminho. O silêncio lhe entorpece a solidão do corpo, da alma. Um naufrágio vive preso em seus pulmões. Balbucia qualquer coisa, inquieta-se, e novamente se tranqüiliza. Os estagnados não criam alegria nem beleza. Tampouco servem a um maior objetivo. 

Ainda não detinha as rédeas do coração. Apenas se perdia em seus labirintos de emoções – alguns saneados e reconstruídos, outros em ruínas, com abrangências cada vez mais profundas e insaciáveis. 

O que aparentava ser simples de abandonar sem qualquer apego agora se tornava um aglomerado de situações insípidas. Não havia nada que soasse verdadeiro à sua fatal compulsão por novidades. Ignóbil. Julgava-se, mortificando a si mesmo sem que o tempo o soubesse, como se aos poucos pudesse recuperá-lo. Quanto daquilo tudo não era sua própria sombra às costas do mundo? 

Tocou-lhe os cabelos levemente para não despertá-la. Só naquele instante admitiria, recusando o inevitável revés, que não adiaria por coisa alguma a sua nômade natureza, exultando a verdade, fora de si, sem nenhuma noite para segui-lo.

Foto e texto By Tere Tavares

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A dor me ser


A dor me ser

afundo a mão entre as águas 
trago seu remanso sobre o meu não saber delas
para recortar a lâmina úmida
acredito que haja um assovio 
na lágrima que é lume sombrio 
tremulando como alvéolos 
teares nas chaminés do campo 
quando a noite se enfraquece 
no cio das aves
outro é o pão que alumia o dia
argila que se molda uma única vez
agora são rios os raios que se aquecem no frio 
e se aconchegam e se verbalizam no silêncio 
– nada diria para que continuasses a dizer
tantos voos suspirando nesse vazio 
onde a correnteza é o lar grave da margem
o anseio da ilha  – que me reste somente 
o que consigo beber dos seus leitos breves, 
como um círio raso e único...
quando a guarida é remo e rede, 
quando não me disfarço de mim - sonrío.


Tere Tavares


em
Debaixo do Bulcão poezine
n.º 41 - Março 2103