domingo, 3 de julho de 2011

Marina


Marina
Uma secura afagou-lhe as águas fronteiriças enquanto a alma molhava-se de círculos.
Decantava sofregamente emoções submersas no percurso de ida ou talvez não...
o amor era um engano farto de ser-lhe ...pestanas mudas do choro desencontrado de já não saber derramar-se, a concha arredia desnudando a areia desconexa
o escrutínio intranquilo e definitivo dando-se ao alcance dos contornos, moles, enrubescidos em ápices arrebanhando o redobrar das horas, subindo ao ar em pequenas gotículas de sais dissolvidos em ondulação
...desidratava-se
enquanto salinava o perfume de um nome, a ardência da pele evadindo-se em refulgências geográficas, minúsculas velas de navios pequenos ao pouso de gaivotas gris – exotismos inextinguíveis – a marca não desaparece quando se subtrai o que a originou, ouvira dos nimbos e dos mergulhos marginais.
No outro refúgio onde dominava estranhos percursos, as marés começavam nos primeiros dias de si – o transcorrer dos anúncios próximos do oceano – e haver como obtê-los, sons e sentimentos, ah! os divisores de águas de onde vêem as lentes alucinadas da invenção – não entender o que se fora
...sobrevivia em percalços lábeis, desaparecidos numa qualquer intacta memória.
Para além da emoção, a inércia vigorosa ...fractal.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Passos


 

Um painel de pano descendo do teto. É neste espaço artesanal que se gravam as intuições, o surreal dos passos. Passos de antanho e de agora, de amadurecimento e frescor indeléveis.

As flores voláteis e douradas são a estrada de Alice. Depois vem o convite ao mar, num quarto pequeno, o buquê, natureza viva. No quarto maior onde a mãe dorme, a miragem, e novamente, em duas nuances uma linguagem de flores, o claro obscuro em escorridas e femininas liberdades. No corredor o lugar ao léu, a lagoa com três patinhos mansos.

Tem outra cena de lago e ocas ao poente lambendo a crueza das paredes.

O leite no escuro na sala da máquina de costura velha comanda outra vez a dança das flores junto a estante de ferro. Na cozinha os frutos suculentos da época. Em seguida, o novo do lago - não há como não refugiar-se nas águas - reflexos e beija-flores.
O que é isso que a desordem da vida pode sempre mais do que a gente?(Guimarães Rosa)

E os olhares urbanos aguardam algumas das que serão as últimas pinceladas.




Foto- Ariel Tavares

sábado, 28 de maio de 2011

Alquimia

a angustia de não me ter
desliza aos meus pés

vazio & fastio
espiam
no revés

rasa
bambu na tempestade
beijo o chão umedecido

arrancando do próprio sangue um motivo
cresce uma flor de milagre

surpreendo-me
cada lágrima é agora
uma alquímica rosa
exposta em minha sala

Tela -Vermelho Rosa- 2006
Tere Tavares  

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Aura




Não se importou com seu sofrimento. Estava ali por estar.
Os aplausos o agradavam como quando ouvia Beethoven. Não tinha papas na língua. Assumia todos os personagens de todos os livros que lia e dos que viria a ler, todos que encontrava dentro e fora do habitual.

Gostava de ser longínquo, conhecia quase a totalidade das sensações humanas, inclusive as “demasiado humanas”. Nitzsche o compreenderia bem. Parecia viver com a desenvoltura das águias e a sutileza dos ventos, cheirando a luzes escritas sobre ondas e areias – mantinha a suficiente distância que lhe conferiam a timidez e a vastidão dos verbos inquietos –  tão movediço quanto.

Atravessava o tempo com uma urgência tranqüila e constante. A geografia: segundo encanto, onde se demorava mais. Como se olhasse um raro espécime do universo, reconstruía para os outros a alquimia da compaixão. Era parte de seu cotidiano ser carinhoso, perguntar como vai, como não, desejar felicidades, muitas.

Claro estava que não importava na mesma proporção que se importava. Os amigos permaneciam desgraçadamente ausentes, propositalmente mudos. Prometeu que se interessaria mais pelos ensinamentos de Lao Tsé. Mesmo sabendo do seu estado revelava com toda a intensidade o comportamento jovial e sistemático: “Seja o que for possível até conhecer as possibilidades do impossível”.

Cicatrizava as feridas – as que sabem espreitar na inteireza dos vãos – com a liberdade autêntica de retornar a novos ângulos e umedecer o seu sol: “Terás vontade de rir comigo, e teus amigos ficarão espantados de ver-te rir olhando o céu”, solfejava-lhe uma criatura aparentemente angelical vinda das páginas de Saint-Exupéry, encorajando-o a prosseguir com avassaladora alegria.

Foto da Autora

terça-feira, 19 de abril de 2011

De um pensar contemplativo


Nada se reflete além da mansidão
Das emergências vazias.

Hoje é um dia importante
Não mais importante que outros dias.
Tropeços vivos, possíveis de entrar mim.

Vejo a gratidão pulsando. Mãos cálidas.
Para o que é certo a estranheza menos clara.

Agora sobre tintas e músculos saciados:
no alheamento desta solitude que arrebata meu espaço,
nunca senti minha pobre alma tão distinta alma.
Por que Eu? Por que a graça de rodar sobre isso?
À nudez da minha procura douro algum nascimento.

Meu mister traz plurais agilidades.
Também posso afagar meus tigres.
E Deus é os meus olhos no mar.
Dá-me, liquidamente, mais.

E o silêncio é Deus.



Poema do livro "Meus Outros"
Foto da Autora

quarta-feira, 30 de março de 2011

José Réus da Silva

Talvez tivesse lido no dilúvio da criação das coisas que a chuva estava em tudo. Quando pensou iniciar qualquer movimento debateu-se inexplicavelmente assustado em frente às mãos das grades. Seguras e mornas retiravam o suor de seus braços. O trem que o levaria partira um mês antes. Assim como a nova chance de mudar ou desaparecer.

Viu os mesmos trajes brancos de tantas e passadas investidas como numa apoteose de receitas impossíveis. Tolas. Perdidamente ineficazes. Prostrou-se, punitivo e irreajustável. Todas as fórmulas de superação lhe pareciam inúteis. Falsamente felizes.

Sobrava-lhe ainda um bom lugar para morar. Sem envergonhar-se, sorveria da liberdade o mesmo que a liberdade não lhe permitia abolir. E carregar consigo a sede indesculpável, toda ela, exatamente como um homem que acaba de embocar o que de melhor lhe fornece a complacência disfarçada em bondade.
Tinham lhe proposto continuar naquele ofício. Com um pouco mais de tempo, aos domingos, demorando-se mais e mais sobre o enredo insidioso e mal remunerado do envelope, do mesmo e distante departamento, farto, exausto como a sua resolução de perdurar.

Não tinha vocação para repetir e repetir. Rugiu deliciosamente quando lhe entregaram o diploma. A quase definitiva inércia. A única louça disposta nos seus quinze minutos diários de intervalo para repor as energias. Durante mais de quinze anos permitiu-lhes os talheres. E a gastrite. E o ácido lático do excesso que resultou nas fragilidades orgânicas.

Os médicos não souberam curá-lo. Nem os livros de auto-ajuda. O dia a dia perdera muito da respeitabilidade – fatos em que se obliteram humílimas tarefas, como cortar as unhas, vestir a camisa, fazer a barba. Somente depois de muito tempo obteve a diligência da lógica abusiva que colaborou na geração de todo aquele absurdo (quanto vale aprender a dizer não?) – as fatídicas mínimas coisas ataviadas de infortúnio.

A perda da independência é psicologicamente trágica. Talvez mais claudicante que a própria dor. O mais um não era ele – o número preferido do Capital. O degenerado. Nem seria. Não agora que se descobrira novamente dono de si. Abriu mão da indenização por perdas e danos, da reparação moral embora lhe fossem devidas e justas.

Por conta própria retomou a ciência das ervas – camomila, tanchagem, espinheira-santa, cavalinha, melissa, erva-tostão, e erva-cidreira. Intensificou o que já obtivera da hidroterapia. O banho de ar para o segundo pulmão humano – a pele, como ensina o Dr. Yum – uma fortaleza para o sistema nervoso autônomo. Tudo a ver consigo – uma epopeia de auto cura.

Amadurecer gera o custo dos perigos e o lucro dos iluminados. Adaptou-se. Firmando-se a cada dia na consciência sincrônica dos elementos mais sutis. Suave como o universo que o seduzira desde sempre. Como se saísse de um eclipse.
A flexibilidade do tempo para a estruturação do indivíduo segundo os próprios padrões evidenciam benefícios incalculáveis à saúde – concluem as pesquisas científicas da “Revisão Sistemática Cochrane”.

Não sem a duradoura convalescença obteve o bastante para viver mais harmoniosamente. Estabilizou a própria dignidade com genuína disposição.
Aventurou-se num segmento menos cruel e igualmente ostensivo, uma aposta mais revogável – outra missão constantemente renovada que se converteria no prazer, no engrandecimento da alma. Só que agora depondo uma arma de clarividência infalível: distinguiria, sem delegar ao menosprezo os aprendizados colhidos ou por colher em cada momento, como neutralizar implacavelmente o que o desrespeitasse.


A partir do original publicado no Cronópios:
http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=4963

Foto da Autora

sábado, 19 de março de 2011

Almas


De onde a intensidade do brilho captará toda nudez das emoções.

Eu estava sobre uma toalha branca de fino bordado. A mesa sustentada por colunas de madeira, onde fora esculpido um feixe de trigo, um peixe dourado, um cordeiro de olhos mansos, folhas de oliveira e um cacho de uvas azul escuras. Um livro grande de capa marrom repousava numa estrutura de metal entre os candelabros e as constelações de pétalas.

Chegou. Como se fosse um ser de espécie desconhecida. Serenamente calma pela benevolência do sol que a aquecera permitia-se estar ali como se flutuasse, sem preocupar-se com nada. Agradecia à sua forma sorridente, que mesmo sob as mais inescrutáveis provas, conseguia não deixar exumar-se. Os cânticos eram acréscimos indulgentes aos ritmos próprios. Misturava-se à brancura dos castiçais e cálices ofertando o que tinha de mais sincero, permeando um depositário de anseios e graças alcançadas. A jovem mulher era comum, talvez mãe, e parecia que nada viera deixar ou buscar senão o bem de expor as extensões da vida, o mistério de existir, a força venerável da introspecção.

Percorreu as paredes. Havia nelas outras esculturas, retratando o mesmo homem em diferentes situações: tendo ao seu lado alguém que lavava as mãos, alguém que o ajudava a carregar seu fardo, uma mulher de longos e negros cabelos a beijar-lhe os pés. Gostaria de não dizer que viu o homem crucificado na penúltima. Na décima segunda ele aparecia entre nuvens e figuras voláteis, transparente e rutilante como um anjo.

“Bem aventurados os puros de coração porque verão à minha face, os pacíficos porque serão chamados meus filhos. Vosso pai sabe o que vos é necessário antes que vós lho peçais. Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”. Cada palavra que auscultava era revolvida e tacitamente abnegada.

Segurou firmemente a mão da menina ao seu lado. Pousou uma carícia leve em seus cabelos anelados, nutrindo, fazendo crescer o sentimento como se lhe arrancassem uma porção cada vez maior da alma e findassem por subtraí-la totalmente. Confortava-se corajosamente para assumir a mais bela vitória, por mais morosa que parecesse, haveria de culminar no objetivo concretizado.

Um entrelaçamento carinhoso onde a eloqüência do amor não sucumbe à indiferença que reserva tão pouco de nobre, algo que seria mais do que uma referência de bondade uniria aqueles dois corações mais fortemente do que nunca. Uma frase fraturou a mudez e cobriu o chão: “Um pacto vos fita do alto”. Nunca mais foram as mesmas. Também não retornaram.

Por cerca de dois meses eu permaneci ali. Minhas pétalas se foram e com isso ganhei o jardim amplo dos fundos. Duvidava, com tristeza, que fosse possível renascer no meu novo lugar. O tempo foi passando. Fui regada e cultivada com esmero. De mim brotaram duas mudas muito verdes que alguém deitou em vasos de fibra de coco.

Busquei toda a energia das estrelas para tornar-me ainda mais exultante. No ano seguinte, já em forma de orquídeas florescidas, servi de presente a uma família. Realcei os recônditos da nova casa com todo idílio do mundo. Entre as roseiras avistei a mulher e a menina novamente como se fossem filamentos de mim mesma, revolvidos num espelho.

Foto- Tela "Caminhos" - TereTavares


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Ainsa

Ainsa




Sentiu-se ínfimo. As dúvidas lhe escorreram pelo rosto. Não foi a primeira vez. Provavelmente também não seria a última. Que culpa haveria num ser que não se preocupava somente com o próprio curso, atendendo ao que não conseguia estagnar?

Não tinha pretensões, absolutamente nenhumas. Logo ele, tão simples, cordato, altruísta. Não se deixaria abater por nenhuma ilusão desocupada. Não sabia se tinha amigos ou admiradores – talvez amigos e admiradores fossem vernizes de uma tonalidade diversa. Solitários. Sumamente necessários.

Caminhava resoluto, como se provasse uma paz recém colhida. Felizmente “o enfeitador de paredes” não se havia esgotado. Arrematou o último exemplar. Identificava-se de algum modo ainda não descoberto com a obra e com o autor.

As dúvidas deixaram a face e ganharam o ar. Subiram nas árvores, pousaram na tepidez das folhas. O mesmo verde da cor primária. Não prosseguia de outra forma que não fosse a de apaixonar-se continuamente pelo que acreditava. O que poderia doar a todos. Seus momentos carregados de eternidade. O semblante único. A esperança insólita que lhe brotava na pele sem perder a alegria de germinar.


Foto da autora

sábado, 22 de janeiro de 2011

Queda de Barreira

Queda de barreira

Desta vez não haveria premeditações. No seu caso o hábito desafiaria o monge. Algo como sofrer sem recordar a causa do sofrimento. Não olharia para trás. Anseios e sonhos não permaneceriam adiados por motivos banais. Sorrir falsamente ou proferir amenidades para satisfazer quem quer que fosse também restaria abolido. Se procurasse um ombro amigo não seria para depositar nenhum desespero insolúvel. A todos que amava, mesmo não obtendo nada em troca, continuaria a dar o mesmo amor, sem objetar modificar ninguém. Sua cognição é que deveria se deslocar. A felicidade é, antes de tudo, um ato de coragem. Ofereceria somente o que de mais augusto o habitasse.
Cobrou tempo aos contadores do tempo. A nebulosidade era constante. Durante vários dias de um verão inexplicavelmente frio e transbordante subiu a estrada recortada do mapa com a neblina embaralhando-lhe as têmporas. O jornal fora esquecido como todo o resto. Nem livros. Nem almíscar ou amuletos. Nem senhas ou senhoras. O perfeccionista caótico também morrera sem vasculhar o que deixara de seu na intrusão dos significados.

Vestígios entrecortados de um grande corredor sumamente rico de plantas confidenciavam-lhe janelas com cantos de pássaros irreconhecíveis; nuvens claras margeavam a limpidez do céu. Estrelas longínquas e montanhas intrépidas se agigantavam ou diminuíam conforme a amplitude do olhar – coisas infalivelmente perdidas, em desuso. Um pequeno paraíso filtrado pela mata atlântica, a Ilha Feia era de uma beleza sufocante. Faria tudo para alcançá-la. Enamorou-se dela, primeiramente de longe, imaginando-lhe os lugares, as espécies e a paz replicados do entorno e do interior, ainda inexplorados por ele. A inusitada porção de universo deveria esperar mais algum tempo pelo infatigável viajante. Chovia muito. Voltava a chover. A casa o abrigou como se soubesse tudo a seu respeito. A mobília mal distribuída o irritava ...Mas não ligou. Foi para o quarto diminuto. De paredes brancas e devassadamente nuas. Gostou das paredes nuas porque o incitavam ainda mais a viver apenas com o indispensável. Desceu acompanhado pela curiosidade enquanto saboreava um café, como se dialogasse com um desconhecido casual, tão absorto no que fazia ou tencionava fazer que mal ouviu os próprios monossílabos. Um lixo. A falta de afinidades ferroava-o como labaredas de fogo.

O subsolo não era exatamente o que o incomodava. A verdade ali ocultada não era suficiente para que prosseguisse. Algo que o comprometesse era imediatamente posto de lado. Do outro lado havia escuridão. Lampejos indesejáveis instauravam-se no monturo que em nada lembrava o vazio. Não existem sozinhos, nem a sombra nem a luz. O cérebro decodificou duas figuras humanas de aspecto ameaçadoramente mutável. Como um rascunho dentro de outro rascunho. Uma espécie de ilusão de ótica.

O mundo físico em si não está subdividido em objetos, e é visível da forma como a percepção o organiza. A imagem que a mente abstrai do que vê é volúvel e quase nunca tem como único fundamento a realidade. A informação instilada nos olhos converge com a que está cumulada na memória. O cérebro usa trinta áreas distintas para processar a visão – conforme a marcha dos astros, as variáveis cromáticas, a profundidade, a distância ou a perspectiva dos contornos. Juntos, visão e cérebro, simplificam as imagens, tornando-as mais compreensíveis do que efetivamente aparentam, muito próximas da exatidão. Essa simplificação, permite apreensões velozes, mesmo que dúbias, da realidade externa, de onde se originam as ilusões de ótica. De forma que o cigarro e o copo suspensos por aqueles espectros, de costas um para o outro, eram, além de inexatos, completamente abstratos.

Espantou-se com quanto se pode indagar da subjetividade. Retornou ao pequeno cômodo que lhe serviria para passar o resto da noite. Fechou a janela deixando apenas uma pequena abertura para a renovação do ar.

Enquanto isso montanhas deixavam de existir, exaustas. A mixórdia urbana vinha à tona ilustrando insuportavelmente cada recorrência das orgias climáticas, sua origem, causa e efeito. O fim do mundo. Todas as linhas de pensamento paravam e iniciavam nas catástrofes por opção, obrigação, conveniência ou ciência. “Eppur si muove”.

Nem tudo é propositalmente abandonado. Reorganizou as inquietações. O sol reapareceu com sua multidão de contrastes, turbilhões de almas e quinquilharias para dispensar. Nenhum pedido de socorro foi ouvido. Seu lado são os dois lados. Sublimadamente diferentes.

Foto da autora

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Horas internas de um passeio exterior

Com votos de um Feliz e Próspero 2011.

Acordei feliz,
saí para a rua.
De longe onde me via
passou um sopro cinza de bruma.
Fazia frio em pleno dezembro,
havia momentos onde pisei
a ânsia estreita e difusa da vida,
o bifurcar das arestas
numa paisagem nunca esquecida.

Se sonhava ou se dormia
-ainda não descobri-
escondi-me nas coroas do caminho
...que perfume vago riscava aquele céu
quase invisível
duplicado de mim
no tropeço das raízes
acima dos meus pés.

As romãs
prestes a madurar
combinando almas sem olhares.

Valia a pena então o movimento quieto
o anoitecer demorado e suave
a cingir-me incertamente.

O amor próximo fez-me pensar,
na altura do silêncio
como no sossego irreflexivo das fontes,
que não havia no mundo
maior felicidade que a minha.

Foto-romã-TT

domingo, 5 de dezembro de 2010

Minicontos - Publicação em Portugal


Garbo

Ocre, vermelho, verde, tons de areia e terrosos. Indumentárias coloridas, tramas do tear lavado a suor, o ashanti, o kentira, em desenhos bordados a pedrarias e pinturas, cujo fundamento e motivação se estendiam feito céus almofadados sobre o chão. Quatro mulheres em meio à plantação de milho e capim: danças a rememorar tempos onde nada era segregado em mundos ou deuses. Pés descalços, todas elas, como a solidão daquele espaço longínquo, fitando holisticamente a simbologia da criação. Seres singelos e esguios, sem máscaras, sem referir qualquer necessidade de auxílio. Religadas num cosmo de quase total liberdade. Com os braços a balançar as mãos compridas e fortes sobre as túnicas salpicadas de secura. Como se em seus semblantes amáveis e sorridentes se pudesse ver escrita toda a história – antes e depois de Soweto.
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No crepúsculo todas as cordas são pardas

As sutilezas do céu derramavam-se confusas no seu dorso. O cristal árduo e indefinível dos dias não declinaria de nutrir-lhe as veredas com os lirismos da Terra e a sintonia do homem superior. Irrompeu num porto revolto e destroçou o inalcançável para ferir de imensidão aquela ingênua intensidade. Um tanto disforme e irresignável iniciou um andar trêmulo e mortiço sobre as pedras que poderiam ser cães ferozes ou uma cidade quase sem escândalos. Não fora programado para crer na escuridão. Queria encontrar uma abreviatura em que coubesse como aquele pequenino. Apesar de ter-se transformado, o recanto da sua calma não se modificara enquanto esteve lutando – por uma nova máscara, por qualquer transição calada que se levantasse, ainda que momentaneamente, numa parcela de misericórdia e outra de segurança.
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Textos publicados na coletânea "A arte pela escrita três" (2010) organizada pelo "EscritArtes" editada em Portugal pela "Mosaico de palavras editora".
Foto TT